17.7.14
cova rasa
olha, não é fácil de aceitar, te digo por desilusão própria, já acreditei muito em ter esquecido, em ter deixado pra trás, mas já me deparei tanto com uns mortos difíceis sabe? tem gente que a gente enterra mil vezes numa mesma vida, gente que com certeza veio de alguma outra antes dessa, aquela coisa toda de karma, alma gêmea, seiq, aí não adianta, não é briga terrena não, é coisa do além mesmo, é tentar aceitar que o peito vai ser sempre raso demais, não importa quantas histórias se viva por cima do túmulo, nunca é o suficiente, esses passados imensuráveis... te digo de coração, essa merda toda é real velho, não sei se te alegro ou assusto dizendo isso, depende da maneira como você encara o fato de que uma pessoa vai te acompanhar pro resto de todas as encarnações, dai é como falei, não é questão de acreditar ou não, esta é de fato a coisa mais temida de todas, mas infelizmente só podemos abraçá-la quando tal desgraça nos abençoa.
14.7.14
nem a de van gogh valia tanto
era o teu jeito de ouvir, a tua entrega completa no momento em que meus lábios se moviam, atentos até as palavras que nunca disse, meu deus como sinto falta, como se o simples olhar teu sob minha pele fosse capaz de captar anos de conversa desperdiçada em tantos outros ouvidos. eu sinto tanta falta dos teus tímpanos mágicos, meu amor.
as paredes
algo aconteceu desde que você partiu, não sei como dizer isso sem soar louca, mas as paredes foram embora também, te juro, simplesmente deram as costas sem mais nem menos, deixando-me a sós com a carcaça morta da casa. sinto como se agora elas, as próprias paredes, se recusassem a participar dessa formação bizarra de um ex-lar, ainda que estejam da mesma forma de sempre, brancas, estáticas, alertas, só que agora parecem ter vista para o lado de fora, descobriram o mundo também, ficam cercando tudo aqui dentro com um ar de desinteresse que deixaria qualquer um a vontade para gritar a plenos pulmões; já não escutam mais. mas eu não, eu não tenho pra onde ir mesmo que elas não estejam, ou estejam assim, já não faz tanta diferença, se bem que até faz sabe? eu gostava do jeito que pareciam me ouvir, gostava de pensar que elas haviam chegado cada uma de um lugar diferente e dado as mãos naquele molde, optando por permanecer ali comigo, assistir minha vida enquanto eu me deliciava num livro, tomava um banho, fazia amor, eram a minha redoma viva. e como pareciam se importar, será? sentia que curvavam-se as vezes, poucos centímetros, para alisar minha cabeça (ou era eu quem me roçava de carência?), ou aproximavam-se num corredor já estreito de forma que uma bolsa enganchava na maçaneta da porta, não sei, não sei, sei que agora me parecem muito mais paradas, pesadamente implantadas ali num castigo eterno, querendo divórcio do chão, das janelas, do pé direito, queriam se desarmar cada uma por si só e procurar outro lugar, mas não podem, restam ali cementadas sem propósito, a não ser o de erguer o teto sob minha cabeça e abafar, abafar e abafar o que já se enclausurou em mim. talvez como vingança por ter sido a que ficou, talvez não também. a verdade é que a única porta desse lugar não se abriu desde o dia da despedida, e isso talvez as tenha confundido, talvez imaginem que também ficaram para trás, presas, talvez sejam claustrofobicas, ou simplesmente cansaram, ou nunca quiseram estar ali, em primeiro lugar. mas o que posso fazer? manda-las embora? já mandei, já mandei, ante-ontem terminei a garrafa de vinho que decantava na geladeira e pus-me a gritar "vão, podem ir suas vagabundas, tão fazendo o que aí ainda?", soltei a mão na primeira que vi pela frente, uma das tímidas que sempre ficara recuada atrás do sofá bege, acertei em cheio, e ela me derrubou sem nem um barulho, exceto por um gemido derrotado e inofensivo vindo da parte mais assustada de mim. tinha os olhos vermelhos, a garganta vermelha, a dobra dos dedos vermelha e os lábios arroxeados, pus-me a beija-la arrependida, pedi que ficassem, jurei janelas, quadros, mudaríamos a decoração, seria tudo do nosso jeito, mas já era tarde, não ouviam, não estavam mais, já haviam partido, não sei ainda como, tampouco o motivo exato, mas era certo que estava ali sozinha, e agora escrevo pra ti daqui de dentro, sob a pele fria das paredes mortas, onde nada respira, nem entra, nem sai, do meio do esqueleto dessa casa, ou seria um fantasma?, ou um delírio?, ou seria eu?
café
percebi que bebo água aos montes, sempre que me pego parada vou ao bebedouro e me encho um copo, como se fosse afogar algo aqui dentro, ou ao menos diluir essa ansiedade.
me dei férias
sim, parei tudo, as pendências levitam com enorme habilidade, neguei todos os convites entediantes, fechei as cortinas pras horas, mergulhei tão profundamente nesses dias que descobri a minha própria superfície, ou talvez fosse uma bolha de ar puro vazada de uma cratera quente.
13.7.14
definitely not today
há dias levíssimos onde os olhos se abrem com brilho e a beleza das coisas parece gritar!!!! à minha vista.
saudade
essa sina de quem nasce na língua portuguesa, de poder chamar de algo o inabitável vão entre duas coisas de fato; quando assume forma humana, estica as pernas e caminha até nascer, lá longe, no peito de alguém.
out getting ribs
7.7.14
a questão você
não podia dizer que não, quando o não muitas vezes não passa de um sim adormecido, sendo assim, quando digo "não quero" ou "não sinto", me refiro puramente ao agora desse exato instante, podendo em minutos despertar de uma profundeza alguma outra coisa. mas para que haja a negativa, é necessário também que haja o conhecimento de um sim, que se identifique em algum lugar do corpo a existência dele, e só após encontrada a carcaça morta e inabitada dessa vontade sim, pode-se qualificar o não como um não de fato. só que, o problema, veja bem viu, o problema é a esperteza que essas palavras criam ao longo dos anos, trocando de roupa as escuras para evitar a exterminação completa.
sou berço de mil vontades adormecidas.
a palavra
a palavra nua, no seu sentido desprovido de adornos, essa me fascina, ainda que sobre ela repouse o meu reflexo do que quer dizer, mas não; se for nua, verdadeiramente crua, não há de haver por trás das letras um leque de opções; será ela, mesmo que incompreendida.
6.7.14
banho-maria
e se tudo tivesse sido mais aceitável em mim, se não houvesse tanta repressão herdada nos gestos de carinho, será que as palavras sairiam com menos critério? será que eu falaria tanto e tão pouco quanto os outros? tem gente que me entedia só com o olhar, o olhar vago, com uma falta de ver tão absurda que suspeito serem ocas, ou, muitas vezes, cheias de qualquer coisa rústica que simplesmente nunca precisou ser repensada antes de existir. tenho medo de me tornar cada vez mais frouxa ao redor dos lábios, de um dia adquirir tamanha segurança sobre mim que simplesmente falarei tudo que vier a cabeça, e aí será o fim do bom gosto, o mel mais puro diluído em qualquer coisa de volume; meu maior medo é um dia perder esse concentrado tenso que penerei por anos, repousado em banho-maria.
futilidades
a futilidade das coisas desnecessárias à vida interna, porém extremamente, digo extra extremamente necessárias à sobrevivência de toda vida na superfície, aquela que torna mais fácil a respiração, a que permite um caminhar tranquilo em mergulhos de meio palmo, de retorno seguro, a superfície que distraí toda tensão profunda e calada que habita logo abaixo. a futilidade seria então necessária também? e sendo necessária, seria ainda fútil? pois eu sei que o que existe há de existir apesar de, seria apenas uma questão de peso. seria então a futilidade uma dieta para a incarregavel existência? uma massagem nos músculos da mão que segura o inseguravel da vida, é quase isso. mas ainda é fútil, de forma que vive-se aquilo para não viver isso aqui, tornando-se ao mesmo tempo libertadora, permitindo a respiração, ainda que muda, ainda que o ar passe entre canos tão congestos de palavras que, entre farpas, vence a barreira ainda com o cheiro do que não foi dito.
ainda
também não sei dizer ao certo o que habita aqui dentro, apesar de um par de olhos voltados ao avesso. cada mergulho é como um mergulho na água turbulenta de um mar que não tem onde explodir sua raiva, um mar que nada beira e logo nada beira: cerca-se de si mesmo num afogamento da água pela água mais profunda, moldando sua existência líquida à uma falta de limites angustiante. jogue um corpo ali e ele boiará tão denso o conflito.
g.h.
mas há também a necessidade ser vista, mesmo que por alguém tão mudo que nada diga, a necessidade é apenas dos olhos repousados sobre mim, sem muito piscar, sem que haja tantos desvios, do contrário em um desses lapsos me perderei em outra coisa, ou morrerei rapidamente de carência. sim, é necessário criar uma pele, antes de pensar no resto, antes de pensar em um coração ou um cérebro ou rins, nada funcionará se não houver uma camada de pele satisfatória aos olhos recobrindo todo caos interno. mas, ater-se a necessidade de tal coberta significa cobrir-se, você entende? você entende que quando digo cobrir-se, digo da forma como uma colcha cobre a cama em que se dorme; não se dorme na colcha, porém durante o dia é tudo que se vê, é tudo que é necessário para que evite poeira, para que evite o desconforto de uma visita sentar diretamente no íntimo da minha cama. então estou coberta, admito. talvez por algo que não necessariamente criei para mim, mas talvez pelo molde dos anos adormecidos na pele, ou pela crosta leve que o tempo cria em tudo que é cômodo, e mais do que cômodo, aquela coberta me era essencial, sendo o olhar sobre ela a única coisa mais importante que si mesma.
delírio bonito
quase ver, com todos os detalhes minuciosamente retrados numa tela que se projeta a cada piscar de olho fechado, a tua presença desiludida pelos tristes momentos onde faz-se necessário o enxergar, desejando a cegueira de um amante apaixonado, num frenesi epiléptico de uma criança ansiosa; mordo teu cheiro como se fosse carne.
dormiu
amor, não dorme
que em breve te acordo para um outro estado
esquece a vigília
esquece o sono
fica comigo aqui, entre um piscar e outro.
dormiu
amor, não dorme
que em breve te acordo para um outro estado
esquece a vigília
esquece o sono
fica comigo aqui, entre um piscar e outro.
carol
a vontade, a enorme vontade aumentada pela lupa da distância, ainda que pequena, não tão facilmente contornada, suficiente para fazer da vontade um querer tão forte, quase um delírio bonito.
vontade de você
dormir na vontade,
na vontade crua de uma só carne;
a tua.
um sorriso faminto revela o dente afiado, afiado de tanto roçar em si mesmo
é uma fome
que o olhar não sacia
que o cheiro não sacia
que a memória come
presságio longe
tão perto você chega
mastigo tua sombra
e não sobra nada.
3.7.14
resgate
com um olho fechado e o outro atento, aconteço naturalmente, a madrugada vira dia e nada anoitece, além de você no meu peito.
se eu pudesse te medir, do jeito q pesam as maçãs no supermercado, seria um mergulho sem fim. a gravidade não foi justa no peso dos teus problemas.
vá em paz, meu amor
"deca, eu não sei se me cabe mais falar isso, mas eu to aqui pra você sempre, de coração e a qualquer hora. sei que a situação não é fácil, respeito sua vontade, mas eu me importo contigo, eu gosto muito de tu e quero te ver bem... não esqueça de que pode contar comigo, mesmo que nem sempre possamos nos falar, mas meu coração tem sempre um pensamento bom pra você! fique bem, seja forte como você sempre foi e chore quando não der mais pra ser. mais uma vez, te amo muito e sempre. beijão :)"
desembrulha esse pacote no peito, respira e estica os pés: o caminho agora vai brotar entre teus dedos, leve como uma brisa.
2.7.14
fato:
não conheceu muitas mortes, mas conhecia muitas vidas e sabia que era apenas questão de tempo até a equação se inverter.
quatro e meia da manhã
os vira-latas meditam
há um silêncio não abafado
a mulher beija o filho boa noite
e depois o marido
a louça na pia parece levitar e quase não existir
essa noite os vivos dormem o sono dos mortos
e os mortos dormem como se fossem acordar
vivos
com as dívidas quitadas
e nem um segundo de tempo perdido.
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