24.3.17

a carne dos dias

As horas não estão como estão para mim.
O tempo são cédulas vencidas. Quando se descobre o porquê, troca-se a pergunta e a moeda local. 
O que motiva esse mercador a sair todos os dias e lustrar meus ossos,
Varrer minhas veias
Não é pela renda que lhe pesa os bolsos dos olhos ao final do dia
Mas pela inadiável redenção de todas as coisas
À sua vassoura palpitante.

23.3.17

trêmulo caule

Espiar a vida por uma janela; já estar nela.
Aquela dor que há tempos agia; hemorragia.
Eu não procuro mais entender o quanto de mim se deve ao esquecimento, às invasões transgressoras: apenas me ajude a atravessar essa noite.
Sou um andaime suspenso por dois pássaros cansados; andai-me longe, andai-me dentro, nunca param teus pés em minha memória.
Quando sinto medo, é no tremor das tuas mãos que penso. Tudo treme, meu amor. As árvores, todas elas, beijaram a terra não importa o quão distantes sejam suas copas. Penso no dia em que beijarei para sempre um algo, e esse será de que?

20.3.17

O amor nunca é amor quando é novo, puro e limpo,
De dentes brancos arredondados
Antes dos olhos vermelhos
Os pulsos roxos
Sorrisos reféns

O amor antes da tempestade é uma lei, obrigação ilusória que pega pela mão e atravessa
E tudo o que durar depois da mordida e do sopro e destruição íntima,
Intestinos rasgados
Juntas inchadas
Desespero, desespero,
Depois das coisas que você jurou que nunca faria -
E somente após -
Essa, minha rainha, é a escolha que merece a coroa
E tudo antes é o comprimido para dormir antes da cirurgia,

Nunca flores na sala de recuperação.

O amor nunca é amor quando é novo, puro e limpo,
De dentes brancos arredondados
Antes dos olhos vermelhos
Os pulsos roxos
Sorrisos reféns

O amor antes da tempestade é uma lei, obrigação ilusória que pega pela mão e atravessa
E tudo o que durar depois da mordida e do sopro e destruição íntima,
Intestinos rasgados
Juntas inchadas
Desespero, desespero,
Depois das coisas que você jurou que nunca faria -
E somente após -
Essa, minha rainha, é a escolha que merece a coroa
E tudo antes é o comprimido para dormir antes da cirurgia,

Nunca flores na sala de recuperação.

conheço profissões que nunca me ocorreram pela cabeça:
designer de transportes?

as coisas simplesmente não são.

as coisas poderiam simplesmente ser, mas não são.
são tantas as intrigantes funções que meu corpo religiosamente exerce a cada instante, inclusive os instantes ocos automáticos - respirar enquanto durmo, transpirar enquanto estou tentando - 

tempo

tempo, meu caro - e assim te chamo pois me custas muito, não por afeto - o quanto te devo em dias debaixo desse sol que tanto já viu nascer e perecer, sou apenas mais um grão na tua ampulheta, mais uma alma de muletas que se escora nos teus ponteiros e te estende um tapete pedindo, por favor, passe logo.

um terço de mim é você, pois as outras duas partes já passaram ou estão por vir, e juntos, nos três, somos esse ponto no meio do destino que se cruza cada dia em uma esquina diferente, olhando a mesma sombra que se dobra e alonga conforme os astros nos regem. tempo faminto, viúvo, órfão, mãe de chocadeira.

18.3.17

engenho de dentro

As entrelinhas
como convencer o tempo de que já passou?
inumeráveis palavras criadas para descrever, categorizar, contar o que o perecível tem a dizer, contar a história de tudo já existiu debaixo do sol,
fazê-lo entender que é ele o dado desse jogo, e que nem eu, nem ele, temos controle algum sobre o que virá
pois as mãos são sempre ásperas e as apostas altas

7.3.17

Admirável sombra, cumprida em seu eixo que gira conforme o sol adentra o horizonte, sem deixar um traço no chão, nem uma cicatriz na calçada para que lembre o local exato onde pousou. Depois de amanhã, novamente. Interrompida pela passagem dos faróis brancos que chegam e vermelhos, que partem.

A história aqui é outra, a história é sobre o que não estava ali todos os dias. Sobre o cão irracional que pisou no cimento molhado e deixou para trás um adeus na calçada.

A história aqui é sobre o vento que desfez teu penteado quando querias apenas se sentir segura.

6.3.17

LUIZA


Cambaleando passa ao meu lado com olhos de águia

As expressões são as mesmas porém os copos são diferentes

E essa alegria? Você se olhou no espelho hoje? Era você mesmo ou era só uma máscara grudada na sua cara? Você sentiu que era o outro? Você sabe quem é o outro? Há quanto tempo vive nesse silêncio confuso que somente te traz uma paz mentirosa nessa vida com cheiro de ralo? Fede. Socorro, eu não sei quem eu sou. Os sorrisos ralam nos seus rostos de porcelana.

Bruno

o  sono rançoso preso entre os dentes
o cardume ansioso de pássaros 
que mergulharam no céu de Bruno
e dormiram no ninho de conchas 
pérolas das tuas dores

se está preto é porque te vi de perto
e me reconheci 
nos teus dedos de todas as cores 
presos ao papel
por esse arame farpado que nos talha o peito.

bloodbuzz

i never thought about love when i thought about home

2.3.17

you think flying is hard?

try landing

desague

há sempre uma artéria que corre pro mar
e outra pra memória 

zona de trégua #3

viver é bombardear os pulmões de ar, inevitavelmente 

zona de trégua #2

inquietude de fios de sangue entre as unhas

zona de trégua #1

mapa perdido,
acorda a cárie, acorda a artrite
a solidão é um rosto gigante que chantageia meu sono

1.3.17

às vezes me invade o estranho

estou cansada da minha pele, do meu reflexo, de minhas pupilas grandes e escuras,
abrem e fecham conforme a luz,
mas nada muda no que vejo

21.2.17

one out of four

Took one pill out of the four prescripted, the one that took away my libido and my hunger, my hunger for thrill.

signs along the way

I sometimes wish I hadnt encountered any restriction towards me being myself, not by my family, not by society, not by the restraints of my bra on my chest, or the pills numbing my brain, nothing, just a clear road ahead of me. And, a few, few times, I have thanked every single restriction along the way because I somehow felt that road was taking me to a younger grave.

19.2.17

gabri(ela)

sou uma cidade construída sob as montanhas, com dois rios que me correm, e depois pequenos riachos de ruas sem saídas;
as outras, mulheres, meninas, cidades autodestruidas e reerguidas, me parecem sempre tão mais fáceis, tão mais planas, habitadas;
e todo muro em que dois meninos se beijem, deitados na vertical da vida, tão jovens e descontrangidos,
qualquer muro que não sirva de cama aos que amam em pé,
por favor, saia.

5.12.16

ralo

a gente entra na mar e o mar entra na gente, e é assim em tudo na vida: a gente entra na própria casa e ela, de volta, invade a gente, como se o que houvesse em nó fosse sempre denso demais e precisasse ser diluido pelos arredores. mas não, a gente é fraco.e cai no buraco, escorre no ralo, tão ralo que mal deixa traco quando evapora. a gente não consegue segurar o muro entre nós e eles.

21.11.16

lá, tento

eu queria que alguém entendesse para que pudesse me explicar, mas  mesmo se eu dissesse, ninguém teria entendido. seria o meu destino esse de incompreender-me calada?

há um grito contido, mudo e agudo, em todas as coisas que vejo, um momento entre uma e outra batida no peito tão pequeno e tão constante, desapercebido, como uma outra vida entre essa daqui, uma que só eu vivo.

as vezes perco o fôlego.

as vezes respiro compulsoriamente.

latento.

16.11.16

tem dia que tudo parece um segredo que eu não sei. mas ai voce tem que ir la pra descobrir, la fora, sabe? isso é viver, ele responde. sinto tanta falta tua em pé, na bancada manchada de marcas de patas marrons, voce ali tomando seu cha e o rabo balancado de alegria, o rabo de benjamin, claro. meu amigo eu posso te chamar de amigo pois voce ja me viu morta e viva, que saudade dos tempos em que dancavamos ao meio de almofadas indianas xinfrins e cinzas de desconhecidos, na sala da tua casa com teus pais que dormiam ao lado, cegos de medo. 

7.11.16

atiraste uma pedra

"Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra."



3.11.16

boo

every love story is a ghost story

girl under you

sea of light,
sea of light,
like a helicopter chase
spotlight blinding your way