STAVIGILE, CAFÉ, ÁGUA, OVO, ÁGUA, JANTAR, QUETIAPINA, LAMOTRIGINA, FLUVOXAMINA, ZOLPIDEM, FINI, GOZA, VAPE, FINI, PASTA DE DENTE, ZOLPIDEM, CAFÉ, ÁGUA, CAFÉ, CAFÉ, CAFÉ, LSD,
3.6.21
pcerro
"se a gente nao sabe preencher a declaração de óbito, então teoricamente o paciente não vai morrer nunca?"
27.10.20
tanto
comprometer-se ao amor é comparecer aos cem funerais da pessoa que amamos
daquela que não se é mais
da quem se está muito cansado para ser
da que jamais vestiu a roupa que você criou sobre o que ela seria
recolher a pele derramada e alimentar os ossos
para que cresça o encontro de quem está perdido com quem tão desesperadamente gostaríamos que encontrasse
por um instante, a faísca mostra um olho
e damos graças ao escuro por acolher o medo de quem ainda não encontrou sua forma definitiva,
aceitando o próximo instante e sua transfiguração
(estourar uma espinha no espelho, limpar a mão na barra da camiseta e retornar para cama,
cochichando ao travesseiro que amanhã se acordará mais uma possibilidade)
e também, sobre falar dentro da cabeça com tons baixos, falar manso para o golpe
escutar a ponta da faca
reler a cicatriz em outra língua, olhar a pele como quem lê um poema
um poema que viaja costurando cada instante em uma história
16.6.20
everywhere i look i see failures
arrastar o dedo para cima indica que você foi indiferente
(outra foto)
are you self-conscious about your procrastination?
constrangido e desconfortável
(agora tudo parece pessoal, mas sua existência mal é percebida - exceto por você mesmo.)
the things you don’t know still exist
(the drugs are working)
ignorance is a mistake you make by not doing anything.
perversamente dócil ~
3.6.20
aldeia
na minha cabeça elas não formam ponte,
esticam os dedos na direção de quem grita, o arco dos braços
(são como tentáculos sem um corpo)
incham, encharcados de tentativas, uma turgidez palpitante do pescoço esguio;
são engilhadas, ensopadas, embebidas, afundadas, atoladas, banhadas, molhadas, infundidas,
(para ser dito em uma só respiração)
existem tanto e tão nada são,
de tão insignificantes passam despercebidas,
sem perceber o disfarce mortal da ignorância
morrem pelos olhos
que se voltam
apenas para o chão que desaba.
sou uma mulher que não
eu não quero ter que me convencer de que
sou a mulher salva pelos livros das coisas que eu nunca escrevi
a mulher resgatada pelos olhares de fotografias que nunca imaginei
a mulher vestida por pele apropriada
a mulher camuflada pelas palavras, oportunidades perdidas de um silêncio mais sábio
de um silêncio menos complacente
menos morto:
o silêncio altruísta de quem permite a palavra à mão que deseja segurar
com interrupção de algo ao menos
corajoso.
eu sou a mulher
sentada na ponta da prata do fio da navalha
a pegada embaixo da onda
feito um sonho disperso pelo barulho do assentar de paralelepípedos
em estradas que vejo, sem rumo.
eu sou a mulher que sim
que revisa a palavra antes de atingir as margens de qualquer ouvido,
carregada com vinte e nove granadas aliadas ao hálito do que foi dito,
sem pena
e às torrentes de frases que seguram o pino que nunca sequer desenvolveram
dentre as outras tantas
tantas
que não contive.
(o desejo furtivo de invadir o inabitável
a fragilidade das lâmpadas carregadas no convés)
eu sou
eu sou a mulher de vidro
e eu sou o vidro no útero da mulher.
12.3.20
talvez repetido
diário de sobriedade
yo no hablo con palabras
slow burn
ilusão - val
04.12.19
Bia (Morenas)
28.1.20
engrenagens exaustas
geram calor que queima sem nunca aquecer,
geram tensão nos pontos de contato que jamais se contactuam,
faíscas nos distraem de queimadas,
há uma densa estática em tudo que vejo, na rádio que ouço e principalmente nas entrelinhas dos gestos enfáticos daquele que dá o sermão motivador.
27.1.20
é isso que me dói, até o mais desprezível dos homens já habitou a casa que violam.
sangue errado
28.10.19
amar zona
o grande corpo de voluntariado,
mas as pessoas não se uniram formando um megazorde contra as catastrofes ambientais, seria mais uma corrida silenciosa e individualista sobre quem recolhe maior quantidade de óleo de origem desconhecida, sim, há um cinismo evidente por tras de qualquer ato voluntario, pois assim como dizemos ao agradecer, nada é sugerido, tudo vai bem, obrigado,
o ministro do meio ambiente, ou do ambiente do meio, aquele local sorrateiramente bem conhecido pelos lobistas, esse sim sabe o que faz e o que deixa negligencialmente de fazer.
faixas de pedestre
há também os pequenos acontecimentos banais que se celebram em faixas de pedestres. uma mulher negra e jovem, seus cabelos altos em um coque de emaranhados, vestindo um oculos que, mais a baixo na cena, se converte em um acessório contra sua deficiencia; a mulher carrega a sua frente uma bengala para cegos, tateando como quem chacoalha uma cobra pelo rabo, para que essa assuste qualquer possivel desastre adiante dos seus proximos passos (o que nao falta na cidades sao bueiros e buracos a ceu aberto). ela vem de braços enlaçados com uma jovem albina, branca translucida, quase trasparente, como se tivesse faltado náo apenas tinta em todas as lojas do céu, mas também fibra nos armazens, sobrando apenas um giz ou cal que, pelo visto, foi o que serviu à ela. uma dupla improvavel, sera que cega sabia que sua acompnhante nao possuia qualquer cor? sera que a albina invejava a toda melanina da negra cega? mais uma vez, o sinal se abre e eu sigo pelas ruas indefinidas, as marcas brancas que delimitam cada faixa não foram pintadas. talvez se a albina esfregasse seus pés, pintaria de branco?
19.10.19
U ESSE TÊ
Vai,
Vai,
Vai que só a ti cabe ir são
Em tu ir são
Intuição
Meu faro para letras prolixas é tal qual a gestante nauseada de cheiro de marlboro.
Hoje eu perdi doze horas do meu dia em uma instituição de saude sem janelas, hoje eu me decepcionei às 17:34 e eu fui la fora clarear a mente mas já estava escuro e eu não tinha ticket de estacionamento.
Hoje, hoje, hoje... o teu dia virá.
Intuição.
16.10.19
amores que transbordam
Se eu pudesse escolher um amor, eu escolheria o mar. A maior força da natureza e, salvo algumas exceções, não se impõem em ninguém. Quase tudo aceita. Se derrama e recolhe com maestria, sem se exceder nem faltar. Eu escolheria um amor infinito onde nao pudesse demarcar limites, onde cada dia vivesse a possibilidade de uma nova profundidade, hoje me contentando com a Fossa das Marianas, amanha, quem sabe? Poderia molhar meus pés na estreita costa do Benim e você seria o mesmo mar do amanhecer da Bahia, regido pelos mesmos deuses e orixás e justo à todas as suas criaturas. Eu queria um amor justo. Feito roupa molhada na pele quando me entrego numa onda, sem saber. Imprevisível e doce, ainda que na palavra o gosto venha bem salgado. Não suportando areia e o imbróglio sem fim das ondas, me mudaria para o oceano dentro e viveria dos meus braços e pernas e da minha força e amor por você, e quando me cansasse, finalmente me entregando inteiramente até o último pedaço, me receberias de águas abertas, afundando até teu fundo, ocupando ainda mais espaço e causando em ti uma dor ainda mais líquida, e nem por isso transbordarias.
25.9.19
tecelã
os ossos mal vestindo a pele
Tão medíocre caber em si
Acon
tecemos
de grandes expectativas
Empu
tecemos os telespectadores
Em algum dia longíquo
o extraordinário apodrece
esperando quem nunca seremos
Tecemos as noites de retalhos tão pequenos
Tecemos acordados ou dormindo com a respiração incansável
Acon
tecemos os dias,
Todos os nossos e os alheios e os que jamais veremos,
Nessa noite de hoje,
Tao insignificante e necessária
Assim somos, cascas amassadas,
Frases parti
das ao meio pelo acaso que apelidamos des
tino
Amor
tecendo aquilo sagrado e frágil que realmente somos
Tenha fé
Se eu cair, eu volto logo.