10.7.12

d day

então chega o dia em que você percebe a inutilidade do seu controle. o dia em que, após uma sequência de dias como esse, eu simplesmente me rendo às coisas que brotam de mim. e de repente, tudo que há lá fora parece distante e ilógico. de algum jeito, me fizeram acreditar que a minha forma de sentir o mundo não é socialmente aceita. então resolvi criar o meu próprio lugarzinho, onde não me marginalizo por pensar demais, onde não me dizem que eu pareço sentir mais do que os outros, onde eu sou meu próprio parâmetro de normalidade e...

e onde sentir sua falta é um ato bonito e isento de vergonha.

9.7.12

pelo que sei do amor, eu amei. eu amei do jeito que os livros contam, do jeito louco, imaturo, sem jeito. eu amei e amo, e talvez, vai saber, ame ainda.

i'm so shy, i have to forget about myself.

méxico

- i'm not that strong, sabe?
- eu sei. faz tempo que eu sei.

os sinais


you know i can read them, right? you know i look for them, that's why you leave them, right? you keep this imaginary leash around my neck, but it still suffocates me, in my head. it makes me so angry, leave me alone, leave me alone. are you there? please be there, i'm sorry... i don't know, maybe it's just me wanting you to think of me.

29.3.12

28.03.2012



(várias horas do mesmo dia, na minha cabeça, no meu peito.)

eu deveria estar estudando. deveria estar pensando no futuro, na frente. mas meu pescoço nasceu virado ao contrário, cada vez me convenço mais disso. meus olhos desenvolveram-se emborcados para dentro. não há nada na minha vista além de mim mesma, olhando para trás. 
luto contra a vontade de ceder todos os dias. a vontade de chorar quando, do nada, me brotam as lágrimas nos olhos. luto contra mim mesma, e isso me soa idiota. perco sempre que ganho mais do que perderia me rendendo, me entregando às coisas que brotam em mim tão anturalmente. por que não sei vive-las? por que devo repeti-las silenciosamente todos os dias, meu pequeno ritual de vida, sempre quase, sempre nunca. são tantas as pessoas que vivem suas vidas como se não houvesse perguntas, como se não existisse outra opção a não ser vivê-la da forma que ela se apresenta. por um motivo único, não sei encaixar-me na minha; sou eu quem a possuo. essa relação de posse não passa de mera ilusão, triste ilusão. de forma alguma tenho a minha vida, jamais poderia. ser como o ladrão que rouba mais do que aguenta, deixando cair no chão pedaços do que julga ser seu. com que peito ouso dizer que sou dona de algo que nem eu mesma consigo comportar? não, eu sei; sou dela. e ainda assim, não cedo.
tenho apenas um corpo onde deus plantou uma alma dessas, assim, para que não ficasse oco. não passo de uma tijela de carne tentando se manter limpa nas bordas, inteira. e ouso pensar às vezes que sou também o conteúdo. eu, de carne, acho que tenho fome. eu, oca, acho que posso sentir.
são os olhos virados para dentro, sempre soube. mas ainda não sei falar com autoridade sobre eles. estão olhando.

sentir a falta de alguém. como pode acontecer de se sentir algo que não está? como uma energia estática que permanece no ar depois do último som, e logo se respira para dentro para então perceber que já não se é mais a mesma. se pudéssemos colorir os momentos, talvez veria com mais clareza o que tento dizer. tem algo que fica ali sim, quando o outro se vai. uma coisa que não é preta, nem azul, nem nenhuma das cores visíveis. uma espécie de mancha transparente num rosto, onde não cabe a lembrança nem a realidade. abre-se um portal entre o tempo e o espaço. abre-se um vazio, mas vazio é uma palavra sensata, e logo não cabe para descrever. é preciso ter coração. é preciso ter sentidos. é preciso ter perdido um pouco da razão. é preciso um momento de transcedência, onde um corpo se retira e um outro o deseja presente, tão intensamente, de forma tão visceral, que prevalece o irracional; tudo fica suspenso, a lei da gravidade cai ao chão, a trapaça física. num mesmo espaço, por força de nada mais que um forte instinto de querer, ocupam-se duas massas. contam-se dois tempos. cabem duas vontades. e quem parte, parte. e quem fica, vence.

é o dia. quero que seja o dia. assim posso limitar essa angústia a um espaço de tempo, e esperar tranquila. quero acreditar que de meia noite tudo vai passar, assim como de meia noite, tudo veio. isso me acalma, por enquanto. poderei acordar amanhã tranquila novamente, sem essa raiva, sem esse orgulho. fui sincera comigo, hoje é meu aniversário e acho que mereço aliviar esse peso um pouco. ceder um pouco. com essa raiva, com esse orgulho. o dia é só uma desculpa para me usar ao avesso. mas por que sou sempre tão rasa ao enterrar meus mortos? 

i knew you had left for good. you told me it was just a matter of time, but i think that already at that time i had had enough of waiting and wanting. see, you were still here even though you had moved on. and i still kept asking myself "when am i letting you go?" then i realized it was not about you leaving anymore, you hadn't looked back. it was me, i hadn't moved since then; i was still here thinking about myself thinking of you. so i decided to change my question; "when am i letting myself go?"

essa data sempre me lembrava reencontros, e hoje eu tinha esperança de que, talvez, poderia reabrir velhas portas. mas a expectativa se realizou em abraços e não se desfez em sorrisos, tudo estava e não estava ali. termino dia agora com esse relato honesto, satisfeito, abrindo e fechando velhas feridas. engraçado como aniversário sempre termina sendo uma surpresa. stefanie, que eu nem imaginava lembrar, me ligou toda feliz contando que nunca esqueceu meu aniversário. e eu, ao desligar, percebi que nem lembrava quando era o dela. mensagens simples de pessoas que não precisavam ter feito o mínimo esforço, mas doaram seu tempo e carinho só para lembrar que não esqueceram. marcela, nathalia… ligações tensas, frio na barriga, garganta presa, alívio. carol, como sempre esquecida, me faz rir alegre sabendo que ela vai lembrar angustiada e besta, pois não há raiva. é a carol que eu amo. e andrea, sempre andrea. a certeza de que ouviria sua voz, a conversa longa e íntima, as piadas não mudaram, as farpas no carinho. a vontade implícita, o medo de sentir algo singularmente. mas eu não podia mentir para mim no dia em que nasci. "falar contigo em da saudade. um beijo" "é sempre bom falar cntg (: DOIS beijos kkkk" "não é a mesma coisa, mas tudo bem. não quis te deixar sem jeito, beijo :)" "oxe que nada. fiquei sem jeito não (: beijo" a confirmação de que estava só num sentimento que realmente já passou, a consciência de que não deveria maisestar ali, junto com o orgulho de mim mesma por ter sido fiel, por ter tido a coragem de dar minha cara ao vento, e a raiva por ter me doado assim de forma tão vã. tudo bem, quantos dias não havia me segurado, pouco e muito, para não soltar uma frase dessas assim ao vento? e as vezes que pensei em pichar um muro esperando que você passasse e visse? as mensagens explícitas que soltava nas águas virtuais do computador esperando que, por alguma coincidência, você viesse a ler? eu podia mentir para todos o ano inteiro, e não acho que tenha sido o caso. você foi e voltou, e isso que me assusta. a forma como você volta com tudo depois de tanta certeza de que me livrei. mas mentir hoje, para quem quer que fosse, especialmente para mim, seria como negar a minha vida inteira. ainda sinto saudade, ainda vejo esse rosto no meio do meu peito doendo e continuo querendo conversar com as sombras que vivem comigo, ainda que elas não respondam. é extrema o tamanho da falta, mas eu não sei medi-la. posso apenas dizer que é grande o suficiente para não caber em nada. mas tudo bem se isso for algo só meu. deletei meu facebook para não ser lembrada, para testar, de certa forma, quem tinha a mim realmente dentro de si. descobri, de forma bonita, que ser esquecido não assusta. o que teme mesmo é o apego que se cria à vaidade fútil de ser lembrada. literalmente hoje, aprendi que me angustiava muito mais esse sentimento carente. termino o dia com essas palavras, sem saber direito ainda como vou me acordar amanhã. e ainda que me restem mais 25mins de maria, prefiro me silenciar por agora, deitar na cama, ruminar os pensamentos ou dormir. eu não sei.

16.6.10

brad pitt

hoje eu to sem graça na vida real.

pensei num título duas vezes

penso, e penso bastante, pratico tanto o pensar quanto o respirar, pensando mil coisas por inspiração, desistindo milhares por expiração, penso, piro, paro, ação castradora de toda minha espontaneidade. natural é ser ignorante.

penso, logo desisto.

lerebi

me convém querer tudo, porque na falta de realização fico sempre com um pouco mais de nada. ando sempre três metros além de onde quero chegar, porque caso a preguiça bata, a correnteza pode me arrastar alguns metro para trás e eu terei todo tempo do mundo para flutuar na leveza do acaso. esses passos naturais de quem se deixou levar elevam aos lugares que a rotina jamais chegaria.

deixa ser.

3x no cartão

o que eu quero tem nome? existe? respira? ou ainda ta pra ser criado, com toda a mágica das roupas guardadas que nunca usamos esperando a ocasião especial que nunca chega? porque quando chega nunca e sempre são o que deveriam, e nunca bastam e sempre faltam mais do que alimentam. o preenchimento seguido de um vazio.

mais os juros.

junk-soul

ultimamente não me reconheço, e reconheço agora que já faz um certo tempo além de ultimamente.
coisas que engoli calada e digeri às forças, incorporando cada silêncio cheio como um tijolo a mais nessa parede invisível que instalou-se ao redor de mim, estendendo mãos aleatoriamente para quem grita de lá, assistindo de dentro ao transbordar pesado das coisas que ficaram presas comigo. a vontade bate no peito e volta, a realidade bate no muro "toc toc, tem gente?" não.
não me encontro mais em nenhuma das coisas que um dia despertaram sentimentos irreconhecíveis; minha máquina está parada há meses, os livros empoeirados e enfileirados, os filmes sem final at all e o papel sempre em branco, ainda que cheio de supostos traços meus, em branco;
as fotografias reveladas em branco, as linhas lidas deram branco, os filmes de telas brancas, todo esse branco e nenhuma paz. me afogo no leite denso de sensações que beiraram-me, e quem não sou boia no que quero ser, quem sou flutua com força dentro do sufoco, divisão de águas erradas que mergulharam em si.

bate no muro e volta, bate no vulto e mora.

mentira

fino véu de plástico transparente;
fisicamente inofensivo, emocionalmente muralha da china.

to com saudade de mim; não é vazio, é uma menina que foi dormir fora de casa e deixou um recado na mesa dizendo,


"saudade,
, volto logo"

reflexo


to na porta de casa, baqueteando com os dedos uma música cansada de ser trilha sonora de uma vida sem música, longa espera;
na janela dos olhos pisca uma estrela lá longe e reflete uma luz estrangeira; hoje as estrelas não falam minha língua, sinalizam; conto meus sinais até que formem uma constelação no corpo; sinto-me em casa sozinha; uma vez me disseram que morrer é não ser visto, vejo; no espelho todos os sinais de todas as estrelas e a luz que vem de fora; escuro preto como a morte.
to na porta do corpo, na porta da porta, na janela da janela, na luz da luz dos olhos dela.

12.6.10

do baú dos sonhos



tinha dado por perdido, mas acho que hoje é o dia ideal para ser surpeendido, não é?

10.6.10

cactus e hormônios

o ser humano é egoísta, medroso. sendo então movido pelo medo onipresente da solidão, ele vai em busca de um amor para ama-lo de volta;
alguém que o deixe naturalmente a vontade para ser o que é, alguém que esquente seu coração nos momentos de saudade, que transforme a ausência em mágica espera; é isso mesmo, a gente ama para preencher.
claro, vai muito além disso, muito além de qualquer coisa que eu possa explicar com palavras, se fosse apenas passatempo eu amaria até meu cactus, porque ele me ocupa, ele me obriga a agua-lo de 15 em 15 dias e verificar se o sol está bom. vai muito além de qualquer coisa que uma frase de efeito possa descrever, ou a medicina com todos os seus hormônios venha a explicar; eu acho que o amor é uma manifestação divina, um evento sobrenatural, além.
e eu te amo da forma mais pura, da forma mais sincera, sem pedir nada em troca, porque ainda que troquemos tantas coisas, meu coração é uma pedra de gelo incapaz de sentir teus carinhos, incapaz de derreter com teu quentinho, eu realmente estou dando sem receber, simplesmente porque eu morreria de fome pra que não te faltasse comida, eu te deixaria comer tudo de mim para morrer feliz e viver em você.

sempre admirei os amores não-correspondidos pela beleza do sofrimento escolhido, o amor puro e singular.

iazul

eu já fiz muita coisa errada na vida, errei tentando acertar, como todos, e algumas vezes errei pelo prazer da dor alheia, fiz o mal puro e simples.
já fui infiel com namoradas, desleal com amigos, já menti coisas absurdas, justifiquei muito meio pelo fim... não importa a qualidade das minhas péssimas ações, nem a intensidade, eu sempre paguei calada no final; já fiquei sem dormir simplesmente por não ter abraçado alguém com mais carinho sabendo que aquele abraço significaria muito para quem o recebeu. não sou santa, nunca mando ninguém a merda, é verdade; eu os levo pessoalmente.
mas sempre, sempre, acordo sem dormir de uma noite de travesseiro pesado, quando a consciência derruba o corpo. fazer o mal por acaso, como quando alguém tropeça sem querer no nosso pé, é aceitável, são coisas da vida, acontece. mas quando eu coloco o pé para alguém cair, quando eu antecipo a queda e fico lá sentada, apenas observando, eu não aceito, eu não durmo. posso citar o princípio da não-maleficência, posso dizer que a minha falta de ação já é uma ação em si, e que ninguém poderá tudo por todos, posso. mas eu não entendo.
repito, eu já fiz muita coisa errada na vida, errei tentando acertar, errei por prazer da dor alheia, errei a data de um aniversário importante, errei na hora de marcar o gabarito, errei na escolha de palavras, errei na ausência de carinho intencional, errei no julgamento, errei comigo e com os outros, sempre pagando com dias pesados de sono no final, porque se arrepender é uma forma de redenção, aprenda a lição e siga maior, e eu nunca reclamei dos preços impostos por mim mesma no final de todos os erros.
e agora eu não sei justificar essa coisa que nunca senti antes, que me impede de sentir tudo, porque eu não enxergo o erro, eu não entendo o que está acontecendo, só estou sendo sugada para dentro, sentindo minha conta emocional se esvaziando, os números vermelhos de dívidas piscando, e eu não consigo ver com os olhos que buraco enorme é esse que não fecha, que erro absurdo é esse que vale uma vida, a minha.

sentaram no meu peito, apertaram meu coração e disseram: tudo passa.

9.6.10

fim

tchau, vou escrever num caderno vermelho para sempre.

-- -- ---

passe uma tarde comigo e talvez verás meus olhos brilhando por coisa ou outra, entre outras coisas. enquanto te conto meus sonhos e todas as mágicas que inventei para sobreviver até aqui, a gente pode dividir uma xícara de chá ou um copo de cerveja, e talvez você se sinta a vontade para fazer meus olhos brilharem por uma ou outra coisa tua também. eu te darei muito de mim, sem dúvida te darei uma impressão diferente da primeira que havias, e partirás achando que sabes bastante a meu respeito. mas saberás coisa inútil, visto que sou sentida, sou coisa viva, uma dor de várias faces que por vezes sorri também. sou uma e levo várias vidas, todas marcadas pelo mesmo ferro, pelas dores que são, de certa forma, dores tão minhas, e eu tanto sou tais dores, que não há distinção entre coisa e outra, portanto só me conhecendo quem as sente, só as sentindo quem me conhece.

quando já não sinto mais nada, desconheço-me por completo.


o que fazer com as marcas?
porque a dor eu aguento, a dor eu choro, remedio, espero paciente. mas e as marcas antigas, as feridas velhas e secas que não fecham, como é que se faz quando a dor é crônica e o coração idoso? o que é que se faz quando já se fez de tudo e de nada adiantou, quando dos remédios só se teve os efeitos colaterais, das palavras só o áspero, como é que se faz quando o ar passa feito uma lixa nos pulmões e quando tudo por dentro está um caco? eu me sinto um fim de festa, uma âncora sem navio, apenas peso que ninguém tem mãos para segurar, escorro feito a água que me afunda, disparo incoerências e na confusão de remadas, distribuo murros e socos e ponta pés. eu não posso falar nada disso porque minha boca é um pequeno buraco de um dique cheio, e se eu abri-la pra te contar, vou derramar em você tudo que não quero. eu não posso dizer que quero solidão porque busco paz, pois a paz não está em mim. quando eu digo que quero ficar só, não é sua presença que incomoda; é a minha. eu quero solidão para engolir tudo, para chorar com calma, sem perturbar ninguém, pois ultimamente eu tenho sido demais e ainda tem muito. pedir paz é muito, eu só quero evitar as minhas guerras conhecidas e novas feridas velhas.

me sinto aquele sofá velho que vez ou outra avisto boiando no canal; já fui lugar de conforto para uma família.

seco



ao meu pequeno príncipe


A menininha para quem cuidadosamente reservei esse tempo livre nem se deu o trabalho de me avisar que não viria.


Menininha, foi com carinho que lhe dei esse poder. É com melancolia que a vejo usá-lo.


A espera, os passos leves. Depois as horas que correm frescas como um riacho em meio à relva sobre seixos brancos. Os sorrisos, as palavras sem importância que são tão importantes. Escutamos a música do coração: é linda, linda para quem sabe ouvir...


Não gosto da estação interior que substituiu minha primavera: uma mistura de decepção, de secura e de rancor. Mergulho num tempo vazio onde não tenho mais motivo para sonhar. O mais triste num sofrimento é se perguntar: "Vale a pena?"

Vale a pena todo esse sofrimento por quem nem mesmo pensa em avisar? Certamente não. Entao nem sofrimento se tem mais, e isto é ainda mais triste.

Não há Pequeno Príncipe hoje, nem haverá nunca mais. O Pequeno Príncipe morreu. Ou então tornou-se cético. Um Pequeno Príncipe cético não é mais um Pequeno Príncipe. Fiquei magoado com você por tê-lo destruído.

Também não haverá mais carta, nem telefonema, nem sinal. Não fui muito prudente, e não pensei que pouco aos pouco, com isso, arriscava um pouco de sofrimento. Mas eis que me feri na roseira ao colher uma rosa.

A roseirá dirá: "Que importância eu tinha para você?" Chupo meu dedo, que sangra um pouquinho, e respondo: "Nenhuma, roseira, nenhuma. Nada tem importância na vida. (Nem mesmo a vida.) Adeus roseira."

A.

eu também

brown eyes

às vezes eu me assusto com tudo que tu significa pra mim porque eu sei que se um dia tu for embora nada no mundo vai conseguir preencher esse espaço, e às vezes eu me assusto porque eu me pego pensando em tu e querendo me entregar todinha pra tu, e eu tenho medo de terminar vazia e sozinha. acho que isso é medo natural que todo mundo sente, mas eu tenho ainda mais medo pq quando eu to ctg eu não sinto esse medo, e eu me permito me abrir todinha, sem nenhuma defesa, porque tem algo que me diz "aqui não precisa disso". quando eu to ctg eu não meço as minhas palavras, eu não roo as minhas unhas, eu não faço nenhum esforço para ser quem sou, eu não quero estar em nenhum outro lugar com mais ngm. quando eu to ctg a gente pode ta em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa, e eu me sinto completa porque o que eu gosto realmente quando to ctg é a liberdade natural que tu me da de simplesmente ser eu.

não me imagino existindo de nenhuma outra forma nem pra mais ngm, e acho que isso é a maior felicidade que alguém pode sentir, a maior fidelidade que alguém pode oferecer.


tu é meu livro preferido.

how my heart behaves

Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.



Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.



Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Vega. Levam junto quem me ama, me levam junto também.




Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais,deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.




Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças nas janelas, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se põe. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.




Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.




Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - Aí de mim! Ai, ai de mim!




Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam por destruir tudo.




Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.




Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.




Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.




Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.




Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar será feliz para sempre.




Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.


Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.




Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.


Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom e um milhão de etcéteras!



minúsculo ser

eu me achava incompleta, vazia como uma casa sem móveis, dormia no chão de mim. tantas visitas, e pouca presença. tanto vento, e pouco ar; tudo preenchido com fumaça, bolhas de sabão e espaço. foi depois de algumas noites caminhando pelo nada que descobri que tudo estava ali exatamente por não estar, como uma placa de "reservado" numa mesa que espera alguém, e que era o propósito de cada ausência me mostrar uma parte de mim a ser preenchida, como um passo que antecedia meus pés num caminho invisível traçado antes do saber, farejado apenas com o coração. uma vez nesse caminho, a sensação de perdido aos poucos deu lugar à mim, e sem pedir informação à ninguém, resolvi nunca mais parar para sempre. (...)

31.5.10

armadilha viva

a vida é uma estranha armadilha viva, quadrada. encostamos na grade da infância até que alguém nos empurra para a próxima, batemos de frente na grade da adolescência, pulamos para a grade da idade sem muita experiência e depois nos apoiamos cansados na grade da decadência, alternando as ordens num ensaio randomizado, anotando tudo num caderno de cientista maluco que talvez sirva de instrução para quem vem atrás.

a minha maior dica é: tem saída? não, nem a morte. a morte é ficar parada no meio dando uma de bicho morto.

30.5.10

transplante cardíaco

aos poucos vou andando pela casa e recolhendo tudo que me pertence; as brincadeiras de infância e as marcas de pé preto e bola no teto, as conversas entranhadas nas paredes junto com todos os segredos que ouviram, as bárbies, o tamagoshi, o lego e o diário, o cheiro de minhas comidas preferidas ainda nas panelas, o barulho do sapato social no corredor, assim como a luz da tv acesa por baixo da porta e os banhos de porta aberta. recolho os presentes dos meus aniversários e todo o seu acúmulo de anos, as velas semi-derretidas guardadas na gaveta junto com as fotografias de quando acenderam pela primeira e última vez. vem com elas o enorme quintal de casa com suas árvores de coça-coça, a primeira curva de bicicleta no chão, os inúmeros passeios de carro nas noites de choro e a manhã de comer areia na praia pela primeira vez. vem com elas as tardes de derrota no boliche, os filmes que mamãe dublava no cinema, a pequena sereia todo dia antes de ir para escola e as canções que papai fazia. vou catando pelos cômodos as primeiras memórias de medo ao acordar sozinha, de cama molhada de xixi, de fraldas e absorventes, do chulé na sapatilha do ballet, da camela elástica da ginástica olímpica, dos treinos de basquete, vôlei, futebol, chuteiras e caneleiras, medalhas e uniformes, fardos e fardas. os livros da escola, os gibis da mônica, a capricho. vou guardando de volta em mim o latido do primeiro cachorro, uma vira-lata chamada totó, o som da primeira palavra em inglês, a verdade sobre papai noel, a otite nos verões de água salgada, o balanço no pé de manga, o esconde-esconde nas escadas do prédio, as pescarias impacientes que terminavam em anzol no dedo, as la ursas no carnaval, a piscina em forma de coração, os tiros de chumbinho no nada, o são joão de fogos e quadrilhas, os selinhos escondidos no verdade ou consequência, as tardes bronzeadas de rede balançando, as cabanas e as fogueiras, os cinco reais de mesada por semana, o pirulito que fazia cócegas na língua, a ansiedade para montar a árvore de natal, a interminável sequência de memórias de uma vida.
vou vestindo em mim as roupas espalhadas pelo chão junto com as lembranças de quando usei-as pela última vez... assimilando tudo numa bagagem emocional e segurando em minhas mãos o insegurável, o conteúdo de tudo que dei e me foi dado, o recheio, o peso de uma vida inteira que escorre para dentro de outra pessoa, que agora terá posse de tudo isso.

o que estou fazendo, basicamente, é arrancando meu coração de casa e entregando-o para você.