no futuro eu vou ler isso aqui com outros olhos, olhos que saberão, lá na frente, o que essa crise veio para dizer.
31.5.17
traduções
o tradutor do silêncio senta e me encara, ele tem os olhos brancos revirados, as mãos sob as pernas cruzadas, ele não me vê e nada me diz.
ele pisca quando mexo a mão, os olhos revirados para dentro dele parece que na verdade estão virados para dentro de mim,
ele vê tudo que há dentro, um rosto gigante que me observa dormir.
o homem deve falar somente e tão somente quando algo ver,
por isso ele nada diz.
ele pisca quando mexo a mão, os olhos revirados para dentro dele parece que na verdade estão virados para dentro de mim,
ele vê tudo que há dentro, um rosto gigante que me observa dormir.
o homem deve falar somente e tão somente quando algo ver,
por isso ele nada diz.
casa
é preciso dizer que se esteja dentro para dizer que se vive?
entenda: viver é uma casa com dentro e fora,
temos uma pele também, duas janelas,
um gerador de energia - não desliga nunca -
a quem eu quero convencer que a aqui mora alguém?
entenda: viver é uma casa com dentro e fora,
temos uma pele também, duas janelas,
um gerador de energia - não desliga nunca -
a quem eu quero convencer que a aqui mora alguém?
chuva
não consigo lembrar da última coisa que aconteceu,
nem por que ela aconteceu,
a felicidade está em pequenos potes de vidro,
aguardando em comprimidos
retraída, engolida,
com tempo de meia vida
nada está aqui
nada aconteceu
qual será sua próxima tatuagem?
enfio meu dedo em um buraco na janela porque vazios me incomodam.
nem por que ela aconteceu,
a felicidade está em pequenos potes de vidro,
aguardando em comprimidos
retraída, engolida,
com tempo de meia vida
nada está aqui
nada aconteceu
qual será sua próxima tatuagem?
enfio meu dedo em um buraco na janela porque vazios me incomodam.
28.5.17
eu devo contar dos sonhos que tenho, as senhas para o inconsciente, eu devo dormir em seguida, eu devo fechar os olhos e dormir, eu devo ignorar as mensagens psicosadicas e monotemáticas, eu devo.
eu duvi passar uns dois parágrafos bem e agradecer por ter tido tudo que devo, né esse o pode da posse? o presságio do que perderás, apenas tudo que tens, devo tudo que temo.
não deu dessa vez. só uma frase mesmo.
24.5.17
sonhos
vários sonhos e as lembranças são confusas, talvez um se inserindo no outro de forma irreal.
em um dos sonhos, o que eu vagava pelo labirintos de saunas (que na verdade era um mar aberto sem fim), com apenas o olho esquerdo funcionando (o meu óculos estava sem a lente do lado direito, quase um monóculo, e eu demorava para entender isso e tapar o olho direito), procurava um lugar para me masturbar e eu tinha muita, muita necessidade (não era bem tesao senão uma pura necessidade obsessiva de precisar gozar).
lembro que no próprio sonho eu analisava esse sonho, talvez com Lena, não sei, mas eu analisava o fato de que minha visão parcial simbolizava a forma como eu via apenas o meu lado da história, muitas vezes ficando cega para a realidade como um todo ou sendo absorvida para a cegueira de uma parcialidade hiperreativa. associava isso ao meu relacionamento tanto materno quanto amoroso (mamãe, luiza).
havia um homem que falava bastante, ele gritava entre ondas enormes enquanto eu só queria voltar para o paredão que continha as entradas para inúmeras saunas. lembro que eu queria sempre ir para q sauna três, achando que lá era um ambiente só para mulheres, mas ficava decepcionada quando via que a sauna três era mais uma sauna mista.
em algum ponto, Neide me ajudava.
em algum ponto, o homem que gritava entre as ondas fazia sentido e eu entendia sua voz e percebia que ele era, na verdade, uma mulher. isso me reconfortava.
(sempre a urgência para me masturbar)
em outro sonho, eu me masturbava muito, não lembro mais o contexto do sonho, não lembro das pessoas que participavam nem onde ele acontecia, mas lembro que me masturbava com meu vibrador (em algum momento eu tive que pega-lo do esconderijo com cuidado pois meu irmão estava dormindo no mesmo quarto) e não conseguia gozar.
me masturbava também com minhas mãos, com as mãos de luiza (que já estavam cansadas), com o vibrador (que parecia ser muito pouco para preencher minha vagina), e nada era suficiente para me satisfazer.
8.5.17
amor proprio
burra e monotemática,
os ossos mal vestindo a pele
tão medíocre caber em si
acon
tecemos
de grandes expectativas
empu
tecemos
os telespectadores
em algum dia longíquo
o extraordinário apodrece
esperando quem nunca seremos
16.4.17
tecer
Tecemos as noites de retalhos tão pequenos
Tecemos acordados ou dormindo com a respiração incansável
Acon
Tecemos os dias,
Todos os nossos e os alheios e os que jamais veremos,
Nessa noite de hoje,
Tao insignificante e necessária
Assim somos, cascas amassadas,
Sucos fluindo das agulhas metálicas
Empu
tecendo a trama da vida
Se eu cair, eu volto logo.
15.4.17
deixe-me passar
À multidão que é um rosto só,
Pelas cascas e cernes da modernidade
Sou uma mordida na sua tela
Que não transpirar os poros quebrados
O plasma distraído, acorda!
Deixe-me passar
Estou me curando
Pela solidão radioativa
Encharca a gente de cansaço
E assédios diários no corpo da mulher
Entre os espelhos histéricos
Dando rosto ao meu grito
Ao meu semblante indignado
Deixe-me passar
Está pesando
Entre os recifes da cidade,
Escorrem medos, caos e carne,
E eu levando contra a correnteza
Uma fatia de bolo
Do aniversário do futuro
Que plantei para espantar os furos
No concreto de quem
Quer passar também
deixe-me passar
À multidão que é um rosto só,
Pelas cascas e cernes da natureza
Transpirar os poros quebrados
Deixe-me passar
Estou me curando
Através do tempo a conta-gotas,
Pela solidão radioativa
Entre os espelhos histéricos,
Deixe-me passar
Está pesando muito
Entre os recifes da cidade,
De medos, caos e carne,
Estou levando uma fatia de bolo
Do aniversário do futuro
Que plantei para espantar
Os furos no concreto de quem
Quer passar também
3.4.17
solidão
jantávamos sempre juntos, hoje a comida sobra na panela debochando da solidão.
num jantar de pazes, quem traz a fome?
num jantar de pazes, quem traz a fome?
casa
já mudamos o endereço e ele nos acha, como uma mulher desesperada procurando uma menina.
revistamos as bagagens de roupas dobradas e malas de vinte e sete chaves, ele nos acha.
a mala, a mulher, a menina e o medo: eu esqueci de tirá-los do couro.
revistamos as bagagens de roupas dobradas e malas de vinte e sete chaves, ele nos acha.
a mala, a mulher, a menina e o medo: eu esqueci de tirá-los do couro.
pai
cada momento é uma semente que se planta na minha memória e brota três noites depois, quando todo resto já passou, todo o resto exceto pela imagem das tuas mãos pressionando a garganta que me ensinou a falar, chacoalhando o seio do meu primeiro alimento.
por que me prende tanto o que eu não vi? se eu estivesse presente, teria evitado?
pai, tuas mãos já me bateram tanto, mas é a violência do estranho evitável que me agride. e se eu estivesse lá, aqui?
é quando olho ao redor e todos parecem ninguém, pois é exatamente para ninguém que se conta o que não aconteceu. mas aconteceu, bem aqui onde eu durmo, bem naquela que foi minha cama por nove meses ansiosos.
a violência não assusta mais, eu também já fui mão; só não diga inevitável.
tuas palmas ecoam na minha lembrança o som de "pai, pai, pai" contra a minha mãe.
por que me prende tanto o que eu não vi? se eu estivesse presente, teria evitado?
pai, tuas mãos já me bateram tanto, mas é a violência do estranho evitável que me agride. e se eu estivesse lá, aqui?
é quando olho ao redor e todos parecem ninguém, pois é exatamente para ninguém que se conta o que não aconteceu. mas aconteceu, bem aqui onde eu durmo, bem naquela que foi minha cama por nove meses ansiosos.
a violência não assusta mais, eu também já fui mão; só não diga inevitável.
tuas palmas ecoam na minha lembrança o som de "pai, pai, pai" contra a minha mãe.
1
a dor não dói -
ela acorda, uiva rouca ao meio dia,
desorienta,
toma um copo d'agua como se fosse remédio
para acalmar o que não é e o que não deixa de ser.
a dor é mais uma falta -
de dor mesmo? -
que invoca a cárie, a artrite, a lembrança,
e essas, essas sabem ferir
a carne já amaciada
pela insistência letal
dos dias convalescentes.
é sempre quase e sempre nunca conveniente,
essa mágoa que não desatina num finalmente
apenas corrói o estômago
já tão revestido de papel de parede, insônia e
tinta azul marinho.
ela acorda, uiva rouca ao meio dia,
desorienta,
toma um copo d'agua como se fosse remédio
para acalmar o que não é e o que não deixa de ser.
a dor é mais uma falta -
de dor mesmo? -
que invoca a cárie, a artrite, a lembrança,
e essas, essas sabem ferir
a carne já amaciada
pela insistência letal
dos dias convalescentes.
é sempre quase e sempre nunca conveniente,
essa mágoa que não desatina num finalmente
apenas corrói o estômago
já tão revestido de papel de parede, insônia e
tinta azul marinho.
27.3.17
descobrimento das coisas banais
descobri que tuas mãos tremiam pois nelas haviam fios atados, transparentes, segurando marionetes de gente. teu tremor era uma dança dos meus pés cansados. agora eu entendo, posso dizer.
agora eu enxergo. agora eu sou livre.
cruzei os dedos numa promessa e numa tesoura que cortava qualquer verdade do que eu disse antes; nada é garantia de nada, promessas são compromissos procrastinatórios, palavras vencidas no próprio hálito da boca.
tuas mãos e as minhas, tão necessárias.
agora eu enxergo. agora eu sou livre.
cruzei os dedos numa promessa e numa tesoura que cortava qualquer verdade do que eu disse antes; nada é garantia de nada, promessas são compromissos procrastinatórios, palavras vencidas no próprio hálito da boca.
tuas mãos e as minhas, tão necessárias.
do dia
Nada fornece qualquer garantia a ninguém. Existimos em suspensão. Há muitas maneira de respirar e deixar de respirar. Temos os nossos ritmos. É preciso viver e morrer com eles.
24.3.17
a carne dos dias
As horas não estão como estão para mim.
O tempo são cédulas vencidas. Quando se descobre o porquê, troca-se a pergunta e a moeda local.
O que motiva esse mercador a sair todos os dias e lustrar meus ossos,
Varrer minhas veias
Não é pela renda que lhe pesa os bolsos dos olhos ao final do dia
Mas pela inadiável redenção de todas as coisas
À sua vassoura palpitante.
23.3.17
trêmulo caule
Espiar a vida por uma janela; já estar nela.
Aquela dor que há tempos agia; hemorragia.
Eu não procuro mais entender o quanto de mim se deve ao esquecimento, às invasões transgressoras: apenas me ajude a atravessar essa noite.
Sou um andaime suspenso por dois pássaros cansados; andai-me longe, andai-me dentro, nunca param teus pés em minha memória.
Quando sinto medo, é no tremor das tuas mãos que penso. Tudo treme, meu amor. As árvores, todas elas, beijaram a terra não importa o quão distantes sejam suas copas. Penso no dia em que beijarei para sempre um algo, e esse será de que?
Aquela dor que há tempos agia; hemorragia.
Eu não procuro mais entender o quanto de mim se deve ao esquecimento, às invasões transgressoras: apenas me ajude a atravessar essa noite.
Sou um andaime suspenso por dois pássaros cansados; andai-me longe, andai-me dentro, nunca param teus pés em minha memória.
Quando sinto medo, é no tremor das tuas mãos que penso. Tudo treme, meu amor. As árvores, todas elas, beijaram a terra não importa o quão distantes sejam suas copas. Penso no dia em que beijarei para sempre um algo, e esse será de que?
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