24.3.10

relatividade

- um tumor no cérebro é coisa séria?
- depende do cérebro.

23.3.10

biblioteca

"tu prefere estar assim, normal, ou sofrer por um amor não correspondido e sentir-se viva?"
"prefiro sofrer e sentir-me viva, odeio não sentir nada e amor não correspondido não existe..."
"não existe? como assim?"
"não é amor não correspondido, é apenas amor singular."

snif snif

toda minha infância está aqui comigo, agora.
essa cebola maldita que me faz chorar a cada camada que adentro!

sinto muito

até pouco tempo atrás, o contrário do amor era o ódio.
e as pessoas, sabendo disso, fingiam odiar aqueles que amam, fingiam aquele ódio mortal de quem teve um beijo negado, fingiam aquela repugnância de quem suplicou um último abraço, fingiam todo aquele sentimento para mascarar o outro, e até aí tudo bem, tudo legal, eu entendo, extravasavam ao contrário, mas botavam-se para fora.
ai se dá que recentemente alguém descobriu que estávamos todos enganados, que não é o ódio que devemos sentir nessas horas em que já não sentimos mais nada por alguém, mas sim a indiferença! e logo as máscaras de raiva foram trocadas por máscaras serenas, cordiais, sutilmente indiferentes, até felizes!
e sinceramente, isso me deixa louca, todo esse fingir sentir, ou não sentir, no último caso, porque eu sinto, oras! como posso comer tudo que sinto e digerir indiferente? eu prefiro o ódio, a raiva, o rancor, qualquer expressão por mais distorcida que seja, eu prefiro isso pois eu sinto,
e sinto muito
por tudo isso.

pai

tem um leão ferido, bem aqui do meu lado.
e aquele porte confiante foi derrubado pelo grisalho da juba, e o grito de força agora dá lugar a gemidos de dor, e já não ruge mais como rei da selva, já nem espanta mais ninguém além dele mesmo, aquele rugido, rugido-miado de quem sabe.
ele agora sabe, o pobre leão, que a selva não mais o pertence, que nunca pertenceu, que é selvagem mesmo e será selvagem até morrerem, os dois.
ele está ferido, é bem óbvio para qualquer um que queira ver, e eu vejo, mas não sei se quero.
não sei se quero estender uma mão, pois tenho medo que ele a coma.
novamente.

má educação

a vida toda eu fui uma criança bem educada.
tirava notas boas, cumprimentava a todos sorrindo, respeitava os mais velhos, nunca falava em tons escuros, nunca abordava assuntos proibidos, escutava calada, deixava que apertassem minhas bochechas, não falava de boca cheia, não incomodava a ninguém.
ninguém além de mim e aquela coisa que não conseguia domesticar.

22.3.10

disneylove

é sempre assim quando o assunto é desenho da disney;
"felizes para sempre"
anunciam o feliz, nunca mostram o sempre.
felizes!
param.
sempre?

du(elos) de anzóis

chega de iscas cruas, olhemos ao redor, o que vemos?
iscas, não é mesmo? e por baixo das iscas, suponho que há anzóis, correto?
vocês estão me acompanhando?
então agora escolham uma isca e mordam, sem medo. vai doer, mas mordam, garanto que do outro lado da dor existe alguém que vai te puxar para fora daqui e respirarás bem melhor.
vão em frente, mordam, deixem que entre na carne e depois deixem que a carne entre em vocês e alimentem-se o máximo que puderem, em breve seremos todos autófagos e felizes de nós mesmos.
deliciem a dor, mordam o momento e roam até o talo do anzol, e quando sentirem o puxão
saberão.
saberão tantas coisas que essas palavras não poderão molhar, saberão na hora crua do puxão que aquele anzol agora faz parte de vocês e ai de quem achar feio, ai de quem reclamar das fisgadas constantes, sintam o anzol cru, esqueçam a isca, é só o disfarce, o real agora está em suas mãos, em suas bocas, fisguem-no, puxem de volta, relutem em vão, mas relutem por desencargo de consciência pois em muito breve estarão desnorteados e precisarão de consolo.
"eu lutei até o fim!"
 e derrotadinhos, iremos todos em direções diferentes, para mãos diferentes, mãos cuidadosas ou não, que tirarão os anzóis ou não, que nos colocarão num aquário de abraços ou não, que nos devolverá ao mar ou não. 
estaremos todos vulneráveis pelo cansaço (e aqui não tem "ou não", é coisa certa) e, com pequenos pés atrás, aprenderemos a nos doar àquelas mãos, a comer naquelas mãos.
e um dia enxergarás além das mãos, além da carne e do osso, enxergarás o anzol que habita aquela mão e te identificarás nas dores daquela mão; ela também ansiava por ti e ela também doeu dias de varas secas, de barriga vazia, na ansiedade da espera vazia, até que ela sentiu o puxão de alguma coisa que hesitava ser sua, e sentiu a carne apertar contra a vara, e sentiu o incomodo da linha que rasgava a pele, e sentiu a dor do anzol quando tentou resgatar-te.
você agora nada confortável no sangue daquela mão e o teu sal cura as feridas dela.
a emoção agora será visceral e é muito importante que ocorra essa identificação mútua, se não teu sal em excesso secará demais o sangue e te afogarás no seco ou, não farás força o suficiente para curá-la e estarás nadando em sangue não estancado, e a mão morrerá.
uma vez encontrado o equilíbrio, trate de amá-la com tudo que ela te deu até que não haja mais nada a ser salvo, até que não haja mais nada a ser respirado, até que sejam felizes para sempre,
até que venha uma onda e vire o barco e voltaremos todos para aqui.

21.3.10

beira-mar

todos saíram para fora, e eu aproveitei o silêncio para sair para dentro.
dentro não, meio; entre o que sinto e o que sei, bem aqui onde sou completamente desconhecida. vim pedir perdão e dizer que eu gostaria de gostar de tudo que gostaria de gostar, mas infelizmente essas coisas sempre foram além de mim.
todo dia acordo e tento ser alguém que vai me surpreender, mas nunca durmo muito longe de onde acordei, daqui e é neste aqui que me encontro, tropeçando em pontos e vírgulas sem sair do lugar, numa esteira de palavras e velocidades volúveis e estáticas. já nem me reconheço nessas últimas frases, mas vai ficar de pompa e se brotou, oras, é porque tinham que brotar mesmo.
mas vim, e vindo cheguei e aqui estou, ainda que não saiba o que é aqui e quem estou no momento. 
perdi, novamente.
beirei algo palpável.

roubo:
"às vezes eu desejo que não estivesse viva. mas eu não sei como morrer. não há nenhum botão para desligar. não importa o quão ruim eu me sinta, meu coração não para de bater e meus olhos se abrem pela manhã."

coisas contidas

viver é um passatempo, para alguns.
para outros e para mim viver é apenas uma distração da morte, esse eterno perdurar das coisas que vão se arrastando para o fim, até um ponto onde o fim torna-se desejável e elas cessam de ser, ainda vivas.
o fim de qualquer coisa é um pouco o fim de nós, e as coisas são sempre mais cheias da primeira vez que são, depois são pedaços, pedacinhos, fragmentos, pó, lembranças, passado e
passou.
a primeira vez de qualquer coisa será sempre mais pura, mais doce, mais selvagem. elas jamais serão novamente aquilo que foram na estreia, pois tudo na vida é domesticado, e depois disso... bem, já não são mais como antes; intensidades mais leves de vida. por exemplo, aquele riso que rio agora é o que sobrou do choro vivo de quando nasci porque quando a gente nasce, a vida explode em mil pedaços de coisas que vamos comendo ao longo do viver, e é do nascer que todo homem se alimenta. por isso sinto cada vez menos gosto e procuro cada vez mais pedaços maiores, a fome de viver está me comendo de fome de dentro para fora e se essa minha teoria estiver certa, por favor não esteja, eu estou em dívidas profundas de pratos vazios.

tenho em mim a vantagem de ter sido várias

tenho em mim a vantagem de ter sido várias, ainda que não tenha aprendido nada com os erros de nenhuma delas. porque quando a gente nasce, a gente não lembra de nada.
e aí está o maior mistério da vida. 

perdi, perdi e está bem perdido.
procurem algo para ler nas e n t r e l i n h a s.


suco de limão

tão cansada, tão cansada que não aguento espremer. 
não aguento mais, não aguento mais, não aguento mais, tanto sufoco, tanta vida reprimida e tanta força, tanta força que coloco, meu deus, e se você estiver aí talvez será o único que entenda a força que coloco em cada gesto vivo que tenho, talvez você saiba como é difícil essa coisa que criaste, talvez você, porque não eu.
eu espremo e só sai isso, amargo.

há de chegar

- sabe, eu não.
- não sabes do que?
- eu não sei, sinto que deveria saber algo nesta altura, mas não sei e isso me incomoda. por exemplo, não sei para onde dirigir meus olhos quando converso com alguém, nem o que dizer, nem o que fazer com minhas mãos.
- o que tem teus olhos?
- estão vazios, antes havia alma, mas agora... tenho medo que as pessoas se afoguem nesse grande vazio e se percam comigo.
- e tuas palavras? fugiram novamente?
- não, nunca foram minhas. deixo-as livre, você sabe, flutuam aqui dentro mas faz tempo que não encostam na superfície, sinto falta daquele toque suave de realidade que me traziam.
- e tuas mãos? ainda escrevem?
- não sei, não sei o que fazem minhas mãos. estão... vazias, também. e inquietas.
- tem algo que sabes?
- sim, tem uma coisa que sei muito bem, uma coisinha pequena que me serve de consolo e desespero.
- o que?
- sei que há algo mais a ser sabido.

(to be continued quando eu souber)

17.3.10

desisto

nada, jamais, nada que escreva chegará perto de mim\porque o ato infectou-se
e eu nao ouso voltar lá.

aterrissagem forcada

estou voando há algum tempo e me cansando de tanto céu, o sonho foi vencido pelo infinito das coisas, logo o fim, a part que mais gosto, jamais terei disto aqui.
devo descer, mas
e agora, como escolher?
qualquer pouso será definitivo.

14.3.10

recheio de vazio

tenho medo da terapia, muito medo,
medo benigno, daqueles que sabota com permissão.
"mas também, tens medo de tudo!" dirão alguns, 
"medo de que?" dirão os mais pacientes.

secretamente, bem quietinho e calado, meu medo vai se explicar;
ele tem medo de parar de existir, é isso mesmo, medo também tem medo!
meu medo morre de medo de acordar um dia fora de mim e medo desabrigado não é medo, é energia estática; 
é o que sobra quando a gente come só as beiradas de um pastel de vento,
vento.

e eu, sem meu medo, serei oca também, porque a gente se completa.
eu sou a muralha, ele é o medo da invasão.

oferenda

acabei de ler clarice e invejá-la, só para desanimar de escrever. 
não sei mais como as minhas palavras podem curar feridas tão traiçoeiras que fecharam-se sobre outros encantos
nem
sei o que mais posso fazer por ninguém se ela já esculpiu tão perfeita biosfera emocional,
se ela já nadou nas águas em que me afogo; o caos em que vivo não molhou nem as barras de seus olhos.
e domesticou as palavras desembestadas sem provar-se sobrenatural; sabia muito bem as dificuldades que se encontra no caminho do ser simples.
e criou sentires e quereres apenas sentindo e querendo; não querendo senti-los.
visto que sequei à cada palavra lida percebendo que ela já havia roubado minhas falas, 
visto que ela roubou-me de mim com tanta sutileza que ao ler seus pensamentos
os meus calaram-se conformados
"que bom, alguém aqui nos entende"
e acharam que era voz minha, a dela,
visto tudo que jamais enxergarei
eu já me dou por vivida 
por tabela.

diante de tal realidade, diante do fracasso de sua dona, 
ou de sua escrava, 
nunca sei ao certo meu papel nesse jogo que jogam meus pensamentos,
enxergo um homem que se mata por migalhas
e encontra outro que alimenta melhor com suas fezes,
doente que descobre exames trocados
onde o seu câncer agora é do outro e para ele
sobrou apenas
anemia.

não se ofenda, clarice
essa migalha espiritual é minha maior oferenda.

flor

não consigo me relacionar com as pessoas, nunca entendi muito bem os mecanismos de tal malabarismo, fico sempre detida por dois sentimentos bem barreira;
por mais que minhas raízes cresçam ao redor daquele que escolho como amigo ou amante, é sempre com medo que as rego e,
por mais que permita a minha saída ao mundo deles e as suas entradas na minha casca, nessa troca de habitat sempre tem algo que se perde.

e a cada nova tentativa fico presa no olhar destorcido de cada um e limitada ao que é tolerável ao outro, sendo o meu desconforto mais comodo que o desconforto alheio, sendo as minhas raízes retraídas de volta ao lar seguro, 
e como defesa
broto flores que hipnotizam a todos
enquanto corro louca pelos bastidores.

12.3.10

cer ou nao cer

eu queria ser ignorante e ceder a loucura,
desenfrear frenética,
sucumbir ao além,
virar crente.
porque ao menos eles tem algo em que acreditar
ainda que eu nao acredite que seja puramente isso.
se fosse ignorante, deixaria dopar-me por essas drogas em massa e
seria em massa,
uma ovelha negra no rebanho do pastor ou
uma gota de álcool no sangue do senhor, aleluia!
e talvez seria feliz em massa
sem perguntar o que é felicidade.

com todo respeito, deus
que me livre!

a coisa mais triste que ouvi na vida

"ninguém é responsável por ninguém"

e ainda mais triste foi ouvi-la de mim.

carta ao monstro

oi, tudo bom?
espero que tu nao te importes de eu estar falando, geralmente te irritas quando me demonstro.
(de-monstro, é isso mesmo que quero, de-monstrar-me de ti)
por favor, monstro, vá embora para outro corpo, aqui já havia gente quando chegaste.
gente dormida, porém gente.
gente macabéa, com certa fraqueza de ser, mas ainda assim gente, monstro, e acho que mereco defesa, ainda que minha,
ainda que essa defesinha aguada,
sem muitos argumentos
além de mim mesma.
portanto, peco licenca e já me desculpo,
só te peco com voz baixa que me deixe respirar sem contar as inspiracoes e
que me deixe expirar,
transpirar,
despirar
disso, monstro.

mais uma tentativa

amor?
amor é quando a gente olha no espelho e ve o outro,
and vice-versa.

um grito para dentro

se esse nó virasse voz, eu somatizaria a surdez e
se essa corda desamarrasse, eu mesma reataria.
entao por favor, me obrigue a tudo,
tudo, menos a maria.

11.3.10

ossos do ofício

se me perguntassem "o que é que você viu em todas essas pessoas com quem se relacionou na vida?" eu responderia
"loucura, ué, todas elas tinham inquietudes na alma que correspondiam com meu espelho!"

porque de alguma forma eu sempre me identifiquei com as pessoas que pediam salvação, para mim foi sempre tão óbvio reconhecer nos sorrisos um pedido de ajuda, sempre tão natural sentir-me atraída por aquilo.
tão natural quanto apaixonar-se.

e apaixonava-me como um anjo pelo pecado, para tentar ama-lo e converte-lo em vida útil, em coisa saudável,
em amor.

meu coração sempre partiu quentinho observando aqueles passarinhos batendo asas de si, sem saberem o que eu sabia, mas sabendo que havia algo a mais a ser sabido, que a vida não passava de batidas de asas em vão.
e pousavam em mim sentindo o cheiro do saber, pois eu conhecia algo que elas não, e reconhecia nelas sempre uma busca desenfreada pelo que eu conhecia, e conhecendo o que eu conhecia, sabia duas coisas;
uma altruísta, solidária, caridosa, sabia que não podia jamais negar aquele conhecimento a quem quer que batesse na minha porta mendigando-o (não me pergunte como, era regra de ouro que veio de lá) 
uma egoísta, narciso-busca-espelho, sabia que para mim não adiantava saber o que eu sabia, não bastava conhecer sozinha, era necessário compartilhar e ensinar para que o conhecido em mim tornasse-se desconhecido aos dois,
amor.


acho que era nisso que eu era boa;
reconhecia os beira-vida, os secos-sedentos, os vagantes-vazios,
colocava-os de volta nos trilhos e
observava o bater de asas molhadas,
fechava os olhos e quando abria
haviam partido
mil vezes mais leves,
mil vezes mais doces,
desabrochando todas as flores por onde passavam.

e hoje,
sem saber se o que sei é mais sabível,
roo os ossos solitários,
singulares,
de um ofício que desempregou-me.

10.3.10

de caneta

uma dica para qualquer um que já escreveu algo na vida, que tenha sido apenas o próprio nome na ata de presença de uma faculdade;
nunca apague o que escreveste, 
ainda que teu nome tenha mudado, ainda que tenhas mudado por inteiro, ainda que não mais te reconheças naquilo.
não tens o direito de apagar-te assim, covardia.
mover peças do que já passou é desafiar pesado o que virá.
para que mexer em monstro que já dormiu?
penso em todas as coisas que estavam apoiadas naquele rabisco, que aquele rascunho talvez sustentasse o equilíbrio ecológico da fauna e flora de alguém, que alguém teria derramado lágrimas ao ler ou dado uma boa gargalhada e estupidamente deletaram tudo aquilo, sutileza indiferente.

anda que não gostes, palavras criam raízes.
flores murchas, parasitas de árvores mortas.
o tempo é responsável, não a borracha.

naquela tinta tinha a ti, junto com a ponta da grafite foi uma ponta de ti,
depositaste ali o que um dia foste.
se não gostas do que vês, muda agora, não lá.
de que adianta mudar no que já passou...

assim como ninguém desvive nada, não se passa borracha em passado.
assume-se a responsabilidade ou ignora, vira-se a página, folhas brancas não faltarão lá na frente...

me decepcionei bastante hoje quando vi borracha onde havia voz.
não é matando que se corrige, é amando por cima.
e se é assim que se joga hoje em dia, apagando os erros, 
deve ser por isso que ninguém aprende mais nada nessa vida.

reanimação cardíaca para desacreditados do amor

"carregou? afastem-se!"

http://www.youtube.com/watch?v=BatEID7VrUg

Say what you will
Love finds you even when, 
You've given it up

9.3.10

evolução fail

fruta sem caroço,
peixe sem espinha,
filho de olho azul,
e rosa sem espinhos.

rosa sem espinhos...
é o que todos querem, hoje em dia.

mais do mesmo, baby

lá vou eu falar dela de novo.
já cansou, ela já cansou de sair de minha boca, ela já fez as malas de minha cabeça (no coração nunca esteve, deus sabe o estrago que seria)
ou não, foi arrombando a porta da aorta que a história começou.
queria de todo jeito colocar quem não cabia onde não devia,
ta certo, admito, já sabia o meio e o fim logo no começo
mas nunca resisti ao pulsar do sentir, ainda que dor.
diagnóstico: andréa margolis, 
agnóstico.
neutro, ateu.
não doeu de verdade, não pulsou de verdade, não amei de verdade.
por isso volto lá sempre que posso, para confirmar o fracasso,
para lembrar das poucas vezes que fiz amor e não sexo, as poucas vezes que viveu sem ajuda de aparelhos.
eu não sei, reli tudo isso agora e me doeu lá dentro, lá na porta da aorta que ainda não consertei. talvez, agora sozinha, possa admitir que escapou um pouco para o átrio, ta bom, para o coração.
eu amei, não sei quando, não sei quanto, não sei quem.
nunca foi culpa dela, eu procurava a coisa errada na pessoa certa, o meu dicionário desatualizado do amor colocou mamãe e papai, "perfeição" e "amor" não são sinônimos!
e no final, sabe no que deu?
tirei o pior de nós, eu vi o terceiro lado da moeda,
lixo; mentira, traição, xingamentos, desrespeito, desconfiança, desespero, medo, corrente.
só para ver o ser humano ser humano todas as vezes, todos os dias, eu cuspia na cara da raça com covardia porque do lixo ela catava sempre o melhor de nós, e eu não acreditava, não era possível.
racionalizei o amor e ela desequilibrou minhas equações, e agora?
o jeito era encobrir o que eu não sentia com o que eu sabia parecer sentir-se, espelho.
o jeito era imitar a batida do dela, e nesse imitar o meu descompassou-se e pegou a manha do amar.
o jeito era dar um jeito, e nesse jeito deu-se outro jeito e a bola de neve não derretia com o calor, era oficial, baby.
baby, baby.

ainda me arrepio quando penso no perfume da palavra baby.