21.3.10

tenho em mim a vantagem de ter sido várias

tenho em mim a vantagem de ter sido várias, ainda que não tenha aprendido nada com os erros de nenhuma delas. porque quando a gente nasce, a gente não lembra de nada.
e aí está o maior mistério da vida. 

perdi, perdi e está bem perdido.
procurem algo para ler nas e n t r e l i n h a s.


suco de limão

tão cansada, tão cansada que não aguento espremer. 
não aguento mais, não aguento mais, não aguento mais, tanto sufoco, tanta vida reprimida e tanta força, tanta força que coloco, meu deus, e se você estiver aí talvez será o único que entenda a força que coloco em cada gesto vivo que tenho, talvez você saiba como é difícil essa coisa que criaste, talvez você, porque não eu.
eu espremo e só sai isso, amargo.

há de chegar

- sabe, eu não.
- não sabes do que?
- eu não sei, sinto que deveria saber algo nesta altura, mas não sei e isso me incomoda. por exemplo, não sei para onde dirigir meus olhos quando converso com alguém, nem o que dizer, nem o que fazer com minhas mãos.
- o que tem teus olhos?
- estão vazios, antes havia alma, mas agora... tenho medo que as pessoas se afoguem nesse grande vazio e se percam comigo.
- e tuas palavras? fugiram novamente?
- não, nunca foram minhas. deixo-as livre, você sabe, flutuam aqui dentro mas faz tempo que não encostam na superfície, sinto falta daquele toque suave de realidade que me traziam.
- e tuas mãos? ainda escrevem?
- não sei, não sei o que fazem minhas mãos. estão... vazias, também. e inquietas.
- tem algo que sabes?
- sim, tem uma coisa que sei muito bem, uma coisinha pequena que me serve de consolo e desespero.
- o que?
- sei que há algo mais a ser sabido.

(to be continued quando eu souber)

17.3.10

desisto

nada, jamais, nada que escreva chegará perto de mim\porque o ato infectou-se
e eu nao ouso voltar lá.

aterrissagem forcada

estou voando há algum tempo e me cansando de tanto céu, o sonho foi vencido pelo infinito das coisas, logo o fim, a part que mais gosto, jamais terei disto aqui.
devo descer, mas
e agora, como escolher?
qualquer pouso será definitivo.

14.3.10

recheio de vazio

tenho medo da terapia, muito medo,
medo benigno, daqueles que sabota com permissão.
"mas também, tens medo de tudo!" dirão alguns, 
"medo de que?" dirão os mais pacientes.

secretamente, bem quietinho e calado, meu medo vai se explicar;
ele tem medo de parar de existir, é isso mesmo, medo também tem medo!
meu medo morre de medo de acordar um dia fora de mim e medo desabrigado não é medo, é energia estática; 
é o que sobra quando a gente come só as beiradas de um pastel de vento,
vento.

e eu, sem meu medo, serei oca também, porque a gente se completa.
eu sou a muralha, ele é o medo da invasão.

oferenda

acabei de ler clarice e invejá-la, só para desanimar de escrever. 
não sei mais como as minhas palavras podem curar feridas tão traiçoeiras que fecharam-se sobre outros encantos
nem
sei o que mais posso fazer por ninguém se ela já esculpiu tão perfeita biosfera emocional,
se ela já nadou nas águas em que me afogo; o caos em que vivo não molhou nem as barras de seus olhos.
e domesticou as palavras desembestadas sem provar-se sobrenatural; sabia muito bem as dificuldades que se encontra no caminho do ser simples.
e criou sentires e quereres apenas sentindo e querendo; não querendo senti-los.
visto que sequei à cada palavra lida percebendo que ela já havia roubado minhas falas, 
visto que ela roubou-me de mim com tanta sutileza que ao ler seus pensamentos
os meus calaram-se conformados
"que bom, alguém aqui nos entende"
e acharam que era voz minha, a dela,
visto tudo que jamais enxergarei
eu já me dou por vivida 
por tabela.

diante de tal realidade, diante do fracasso de sua dona, 
ou de sua escrava, 
nunca sei ao certo meu papel nesse jogo que jogam meus pensamentos,
enxergo um homem que se mata por migalhas
e encontra outro que alimenta melhor com suas fezes,
doente que descobre exames trocados
onde o seu câncer agora é do outro e para ele
sobrou apenas
anemia.

não se ofenda, clarice
essa migalha espiritual é minha maior oferenda.

flor

não consigo me relacionar com as pessoas, nunca entendi muito bem os mecanismos de tal malabarismo, fico sempre detida por dois sentimentos bem barreira;
por mais que minhas raízes cresçam ao redor daquele que escolho como amigo ou amante, é sempre com medo que as rego e,
por mais que permita a minha saída ao mundo deles e as suas entradas na minha casca, nessa troca de habitat sempre tem algo que se perde.

e a cada nova tentativa fico presa no olhar destorcido de cada um e limitada ao que é tolerável ao outro, sendo o meu desconforto mais comodo que o desconforto alheio, sendo as minhas raízes retraídas de volta ao lar seguro, 
e como defesa
broto flores que hipnotizam a todos
enquanto corro louca pelos bastidores.

12.3.10

cer ou nao cer

eu queria ser ignorante e ceder a loucura,
desenfrear frenética,
sucumbir ao além,
virar crente.
porque ao menos eles tem algo em que acreditar
ainda que eu nao acredite que seja puramente isso.
se fosse ignorante, deixaria dopar-me por essas drogas em massa e
seria em massa,
uma ovelha negra no rebanho do pastor ou
uma gota de álcool no sangue do senhor, aleluia!
e talvez seria feliz em massa
sem perguntar o que é felicidade.

com todo respeito, deus
que me livre!

a coisa mais triste que ouvi na vida

"ninguém é responsável por ninguém"

e ainda mais triste foi ouvi-la de mim.

carta ao monstro

oi, tudo bom?
espero que tu nao te importes de eu estar falando, geralmente te irritas quando me demonstro.
(de-monstro, é isso mesmo que quero, de-monstrar-me de ti)
por favor, monstro, vá embora para outro corpo, aqui já havia gente quando chegaste.
gente dormida, porém gente.
gente macabéa, com certa fraqueza de ser, mas ainda assim gente, monstro, e acho que mereco defesa, ainda que minha,
ainda que essa defesinha aguada,
sem muitos argumentos
além de mim mesma.
portanto, peco licenca e já me desculpo,
só te peco com voz baixa que me deixe respirar sem contar as inspiracoes e
que me deixe expirar,
transpirar,
despirar
disso, monstro.

mais uma tentativa

amor?
amor é quando a gente olha no espelho e ve o outro,
and vice-versa.

um grito para dentro

se esse nó virasse voz, eu somatizaria a surdez e
se essa corda desamarrasse, eu mesma reataria.
entao por favor, me obrigue a tudo,
tudo, menos a maria.

11.3.10

ossos do ofício

se me perguntassem "o que é que você viu em todas essas pessoas com quem se relacionou na vida?" eu responderia
"loucura, ué, todas elas tinham inquietudes na alma que correspondiam com meu espelho!"

porque de alguma forma eu sempre me identifiquei com as pessoas que pediam salvação, para mim foi sempre tão óbvio reconhecer nos sorrisos um pedido de ajuda, sempre tão natural sentir-me atraída por aquilo.
tão natural quanto apaixonar-se.

e apaixonava-me como um anjo pelo pecado, para tentar ama-lo e converte-lo em vida útil, em coisa saudável,
em amor.

meu coração sempre partiu quentinho observando aqueles passarinhos batendo asas de si, sem saberem o que eu sabia, mas sabendo que havia algo a mais a ser sabido, que a vida não passava de batidas de asas em vão.
e pousavam em mim sentindo o cheiro do saber, pois eu conhecia algo que elas não, e reconhecia nelas sempre uma busca desenfreada pelo que eu conhecia, e conhecendo o que eu conhecia, sabia duas coisas;
uma altruísta, solidária, caridosa, sabia que não podia jamais negar aquele conhecimento a quem quer que batesse na minha porta mendigando-o (não me pergunte como, era regra de ouro que veio de lá) 
uma egoísta, narciso-busca-espelho, sabia que para mim não adiantava saber o que eu sabia, não bastava conhecer sozinha, era necessário compartilhar e ensinar para que o conhecido em mim tornasse-se desconhecido aos dois,
amor.


acho que era nisso que eu era boa;
reconhecia os beira-vida, os secos-sedentos, os vagantes-vazios,
colocava-os de volta nos trilhos e
observava o bater de asas molhadas,
fechava os olhos e quando abria
haviam partido
mil vezes mais leves,
mil vezes mais doces,
desabrochando todas as flores por onde passavam.

e hoje,
sem saber se o que sei é mais sabível,
roo os ossos solitários,
singulares,
de um ofício que desempregou-me.

10.3.10

de caneta

uma dica para qualquer um que já escreveu algo na vida, que tenha sido apenas o próprio nome na ata de presença de uma faculdade;
nunca apague o que escreveste, 
ainda que teu nome tenha mudado, ainda que tenhas mudado por inteiro, ainda que não mais te reconheças naquilo.
não tens o direito de apagar-te assim, covardia.
mover peças do que já passou é desafiar pesado o que virá.
para que mexer em monstro que já dormiu?
penso em todas as coisas que estavam apoiadas naquele rabisco, que aquele rascunho talvez sustentasse o equilíbrio ecológico da fauna e flora de alguém, que alguém teria derramado lágrimas ao ler ou dado uma boa gargalhada e estupidamente deletaram tudo aquilo, sutileza indiferente.

anda que não gostes, palavras criam raízes.
flores murchas, parasitas de árvores mortas.
o tempo é responsável, não a borracha.

naquela tinta tinha a ti, junto com a ponta da grafite foi uma ponta de ti,
depositaste ali o que um dia foste.
se não gostas do que vês, muda agora, não lá.
de que adianta mudar no que já passou...

assim como ninguém desvive nada, não se passa borracha em passado.
assume-se a responsabilidade ou ignora, vira-se a página, folhas brancas não faltarão lá na frente...

me decepcionei bastante hoje quando vi borracha onde havia voz.
não é matando que se corrige, é amando por cima.
e se é assim que se joga hoje em dia, apagando os erros, 
deve ser por isso que ninguém aprende mais nada nessa vida.

reanimação cardíaca para desacreditados do amor

"carregou? afastem-se!"

http://www.youtube.com/watch?v=BatEID7VrUg

Say what you will
Love finds you even when, 
You've given it up

9.3.10

evolução fail

fruta sem caroço,
peixe sem espinha,
filho de olho azul,
e rosa sem espinhos.

rosa sem espinhos...
é o que todos querem, hoje em dia.

mais do mesmo, baby

lá vou eu falar dela de novo.
já cansou, ela já cansou de sair de minha boca, ela já fez as malas de minha cabeça (no coração nunca esteve, deus sabe o estrago que seria)
ou não, foi arrombando a porta da aorta que a história começou.
queria de todo jeito colocar quem não cabia onde não devia,
ta certo, admito, já sabia o meio e o fim logo no começo
mas nunca resisti ao pulsar do sentir, ainda que dor.
diagnóstico: andréa margolis, 
agnóstico.
neutro, ateu.
não doeu de verdade, não pulsou de verdade, não amei de verdade.
por isso volto lá sempre que posso, para confirmar o fracasso,
para lembrar das poucas vezes que fiz amor e não sexo, as poucas vezes que viveu sem ajuda de aparelhos.
eu não sei, reli tudo isso agora e me doeu lá dentro, lá na porta da aorta que ainda não consertei. talvez, agora sozinha, possa admitir que escapou um pouco para o átrio, ta bom, para o coração.
eu amei, não sei quando, não sei quanto, não sei quem.
nunca foi culpa dela, eu procurava a coisa errada na pessoa certa, o meu dicionário desatualizado do amor colocou mamãe e papai, "perfeição" e "amor" não são sinônimos!
e no final, sabe no que deu?
tirei o pior de nós, eu vi o terceiro lado da moeda,
lixo; mentira, traição, xingamentos, desrespeito, desconfiança, desespero, medo, corrente.
só para ver o ser humano ser humano todas as vezes, todos os dias, eu cuspia na cara da raça com covardia porque do lixo ela catava sempre o melhor de nós, e eu não acreditava, não era possível.
racionalizei o amor e ela desequilibrou minhas equações, e agora?
o jeito era encobrir o que eu não sentia com o que eu sabia parecer sentir-se, espelho.
o jeito era imitar a batida do dela, e nesse imitar o meu descompassou-se e pegou a manha do amar.
o jeito era dar um jeito, e nesse jeito deu-se outro jeito e a bola de neve não derretia com o calor, era oficial, baby.
baby, baby.

ainda me arrepio quando penso no perfume da palavra baby.



mar de marias

na beira da vida encontrei muita maria afogando-se em seco
e as pobres todas remavam na terra de ferir carne e cair unha
era bonito de ver cada uma atirar-se de si e mergulhar-se noutra
ainda mais seca, ainda mais vazia
cada vez menos
maria

era bonito até chegar minha vez.

it's only suicide

para quem vê de além dos muros, pareceu morte,
morte purpurina, ou morte enfia-um-abacaxi-no-cú-e-diz-que-é-sereia.
que frágil esse momento calafrioso onde os músculos da face se enrijecem escolhendo a palavra certa para dublar a palavra mais certa, onde eu sempre me concentro para analisar se é uma auto-poupação ou se, de fato, buscam poupar-me de mim mesma, como se eu fosse me constranger comigo, e algumas vezes avistei também o sincero reconhecimento de falta de intimidade para tal abordagem, perdi muita gente nesse aí que preferem pegar a tangente de um outro assunto qualquer, já vi outros toparem nos seus próprios limites com sujeito tão pesado e pararem para olhar para dentro e terem verdadeiros monólogos onde eu era apenas disfarce para eles com eles, alguns poucos que montam no assunto e resolvem que é touro domado e levam um tombo cavalgando meu mistério como se fosse aventura de filme, nunca nenhum que acertasse na mosca porque eu não deixo já que é marca minha e quem quiser que sangre para conseguir a sua, e é um grande momento de conhecimento alheio, esse breve instante de escolha de palavras que é tão individual e único embora o papo seja sempre o mesmo e a palavra a ser encoberta seja sempre aquela, que sussurram até nos próprios pensamentos com medo de ouvirem.
"suicídio"
foram tantos os consolos que ouvi, muitas vezes direcionados para meus arredores, algumas vezes para o próprio consolador, poucas vezes para mim.
e eu sempre explico ao pé da letra o que aprendi nesses meses de análise e auto-análise que sim, eu tinha intenções de matar alguém dentro de mim, mas não a mim e agora estou de luto por quem morreu em parte, e a parte sã vela a parte partida, e todo o meu velório e reza vela ficou por minha conta quando a vaca de freud disse tchau e obama aprovou coca cola de inhame e john lennon previu naquela música tudo isso... 
é mais ou menos essa a imagem final de quem fica até o final para ouvir.
balançam a cabeça e sorriem empaticamente pensando assustados e com medo do próprio pensamento ("loucura é contagioso!" "pobre menina rica!") 

"talvez tenha morrido mesmo, talvez fosse melhor se tivesse"
essa vem de lá e de cá

"cicatrizou tão bem!"
"é, mas nas noites de sal desatina que é uma beleza"
essa eu nunca respondi

"foi tentativa de suicídio mesmo?"
"não, foi tentativa de tentar viver, suicídio é esse viver pouco de agora!"
essa ainda lateja

eu me divirto, aprendo muito com estes momentos e instigo um sempre que vejo a brecha na porta do assunto, "sim, sim, olha aqui a cicatriz" fisgo os curiosos.
esqueço os que doeram, os que não conseguiram dormir comigo e os que aceitaram dormir comigo novamente mesmo depois de ter passado por tudo isso e ai lateja e rasga e a carne sangra tudo de novo, e eu morro toda de novo, eu morro nova de novo.
"é que eu achei que mortos descansavam em paz..."

gramática

agora eu sei que nem tu nem ela nem eu
seríamos capazes de nada contra isso
porque acabo de perceber que eu sou tu e tu és ela e ela somos nós
e nós não somos mais nada
pronomes pessoais
despessoados

despetalada

eu que era à flor da pele
que queimava louca nos dias de sol
e desatinava doída nos dias de chuva
que sempre tive oitos escuros
e oitentas eufóricos
eu brincava com fogo
e bebia o xixi da cama
e as paixões
lindas e vindas
despelavam no sol
como casquinha de verão
para nascer de novo
no primeiro piscar
de olhos vermelhos
todas as primaveras
que brotavam do toque
do batuque
do tchibum
e splash
o que aconteceu?
o silêncio comeu.

e os dias de fogos
no meu quarto
as panelas fervendo
e os copos sempre
meio cheios
esvaziaram-se para dentro
esmoreceram
enmorneceram
e toda a chama
chamou em vão
toc toc
quem é
é a solidão.

e a doença devora solta
de dentro para fora
e o de dentro
parou lá fora.

8.3.10

achtung

parando para pensar, viajando numa hipótese de que tudo que eu quero se realize enquanto durmo hoje a noite, eu não sei se gostaria de acordar amanhã.
se de repente o telefone tocasse no meio da noite, eu não acho que estaria pronta para assumir as responsabilidades do outro lado da linha. é muito complicado essa coisa de pessoas, esse malabarismo de sentimentos, de gente nova no pedaço já basta eu.
ainda que tudo acontecesse da melhor forma possível, nada garante que eu acordaria feliz.
menos triste, talvez.
menos só, maybe.
menos medo, peut-être.
mas isso não é definição de felicidade para mim.
a vida é assim, não isso, mas assim.
e talvez meus desejos só sejam bons enquanto meros desejos.

este é o segredo;

ta tudo meio solto, tudo muito meio solto.
to derramando no chão e ninguém me enxuga, as pessoas passam por cima, arrodeiam, fazem cara feia, fingem que não viram
ou pisam e reclamam.
e o máximo onde chego é na sola do sapato de alguém, e fico presa no tapete de alguma porta, no "lar doce lar" de algum carpete, fico manchando a entrada da felicidade de outros.
por favor me recolha, me coloca numa garrafa e cospe-te dentro.
lambe o chão e me engole e não vomita.
e eu vou ser sua, vou ser quietinha e contida numa parede de abraço.
se você souber lidar com as sobras, eu virei te visitar todos os dias.
se você souber lidar com as sobras, as sombras se vão.
este é o segredo; o mais bonito são as sobras.

houston, the problem is solved

que urgência, que necessidade.
corri bastante para chegar aqui e escrever isto.
como se o mundo fosse sair do eixo se não o fizesse, como se o presidente fosse ligar perguntando "cadê?" e a novela passaria fora de hora e os sinais piscariam azul e rosa.
mas, para a tranquilidade interior e paz universal, cheguei a tempo.
nunca vacilei com esses prazos de entrega, talvez porque o mundo não aguentaria viver sem mim,
talvez porque eu não aguentaria saber que o mundo
ainda
roda
quando
eu 
paro.


pronto, pronto, passou...

monday

sabe, todo dia eu acordo com frio na barriga e penso "pronto, começou, de novo".
e daí em diante tudo é doença.

no banho os pensamentos caem com a água e molham tudo, inundam, encharcam. saio pingando e derrotada, e ainda são 7:10 da manhã. esqueci de passar o condicionador, mas e daí, não me arrisco lá dentro novamente.

escolho a roupa, ou melhor, a roupa íntima.
tortura.
a calcinha preta eu uso hoje ou amanhã? pq uma vez me disseram que calcinha preta quer dizer "sexo" e hoje acho que não verei ngm interessante, não vou desperdiçar essa. que tal a de bolinhas que ela me deu? não, pq me lembra ela, e essa eu guardo para os dias de saudade e fantasias. então a cor de pele que é sem graça e não anuncia nada demais além de minha sem gracice. 
sutiã rosa mesmo, esse me traz lemranças boas e ruins em doses justas e toleráveis, como naquele dia...
7:23, e acabei de atacar o último dente do sutiã.

e agora? 15segs de pausa parada na frente do guarda roupa enquanto minha cabeça faz uma lista das possíveis pessoas que verei hoje e lembro que aquela em especial não estará lá hoje pois li em algum orkut que tinha viajado, mas ainda tem aquela outra que com certeza estará na cantina às 9:40, horário do intervalo de administração, e talvez aquela que não vejo há um tempo mas que algo me diz que verei estacionando o carro hoje.
7:30 e ainda estou nua (por fora, por dentro já estou de pijama, à noite, assistindo BBB e pensando "meu deus, enlouqueceria em 5mins ai dentro!" ou talvez nao, talvez já esteja louca aqui fora e lá dentro me sentiria em casa, pq o habitat de lá condiz com o meu habitat mental)

escolho meticulosamente a roupa de hoje pensando na do resto da semana, e quando dá tempo ou me deixo levar, a da semana que vem também, mesmo sabendo que amanhã será o mesmo processo all over again.  qualquer coisa curta e jeans para baixo, camiseta a prova de suor (tenho que colocar botox nas axilas!) e são 7:35 e já estou exausta e ainda vou trocar de roupa umas 3 vezes obedecendo às regras e ainda nem tomei café, e provavelmente não tomarei por falta de tempo e excesso de escolhas. que bom, emagreço (uma ova, eu sei que à noite vou me atracar com amendoim japonês e treloso de morango)

7:40 sento na mesa, frio na barriga, de novo, não será o primeiro nem último de hoje. chá verde com gosto de industrial lemon, não quero descrever a comida. frio na barriga, frio na barriga, eu estudei para tutoria? não importa, você não consegue mais lembrar de nada, sua cabeça ta full, desista, relaxe, give it up ou give it down? "oi, bom dia papai" (por favor, me tira daqui!)


corro para a faculdade, para a salvação, para o piloto-automático.
corro de mim mesma e me escondo naquela bata branca.
isso, informações, me bombardeiam com informações e que delícia, não ouço mais minha voz, não lembrarei de nada disso no final do dia, e eu sei que deveria pois vem prova por aí, mas não dá, esse é meu segundo de paz, entendam, eu preciso disso para respirar , há meses que não consigo ler um livro, focar a máquina numa foto, conversar olhando nos olhos, há meses que deito e não durmo, que como sem fome, que penso nela, nela, nela. 
e mesmo ela, que bem me faria se estivesse aqui? provavelmente nenhum, visto que ela é só o disfarce. visto que eu não a amo, que nunca amei, visto que era tudo doença, infectei.
infectei ela, ela desinfectou-se. está por aí com aquele brilho nos olhos, cama completa e coração cheio. não a culpo, ela voltou para me salvar. 
lá se foi meu segundo de paz, tudo bem, você conseguiu me encontrar aqui na faculdade mas por favor, vamos prestar atenção um pouco pois isso é importante para nós
sem acordo, lá vem ela, lá vem eu, será que ela ta na cantina agora? que horas são? não, muito cedo ainda. faça alguma coisa, não vá começar a contar os minutos se não isso vai virar um inferno...
"ahahahahahaahahhahahahaha!" graças a deus, alguem fez uma piada. ah, fui eu. bem na hora.

será que ela ainda pensa em mim? carreguei ela no colo para longe e fui sussurrando conforto em seus ouvidos e agora acabo de me dar conta que estou em caída, falando sozinha enquanto ela corre livre com meu combustível. que idiota, que perfeita idiota que sou.
pelos meus cálculos ela me ligou no final de janeiro para dizer que morria de saudades e que pensava em mim todos os dias, e, na mesma ligação, disse que tava namorando e fiquei confusa e dura e pedrei, e eu devia ter dito, devia ter falado logo de uma vez que eu também pensava nela todo dia, que eu não dormia pensando nela, que eu escrevia mensagens e guardava nos rascunhos, que eu morria de saudades, que por favor não fizesse isso comigo, nao fizesse isso conosco, com todas as marias. devia ter lido todas as cartas que escrevi, devia ter lido bem alto tudo que se passava na minha cabeça naquele momento e que não deixei escapar, que foi retido a duras penas e deu lugar a um cordial, seco, conformado, falso, perfeito, "que bom, fico feliz, espero que de certo." eu pingava de suor, eu pingava dentro e fora, eu, eu... eu? eu um caralho, aquilo não era eu. nunca foi.
final de janeiro, daqui para lá me deu outras chances. todas iguais, queria tanto ter retribuído aquele abraço. queria ter respondido as mensagens, ter sido recíproca, forte o bastante para enfraquecer meus joelhos diante dela e ter dito, queria ter podido.
tantas chances que ela me deu, tantas vezes me testou, não sabe o quanto doeu, o quanto dói, o quanto me arrependo.
e eu não cedi (que orgulho, não é mesmo? não. não é. mesmo.)
talvez pq eu já sentisse o cheiro de doença no ar,
talvez já fosse a doença falando,
ainda estava tudo muito apertado naquela época e no sufoco de um afogamento a gente não pensa, reage.
confundi remadas com murros.

mas, e agora? agora, neste exato minuto. 
nesta exata segunda-feira que estou em casa, doente, sem nada para me segurar nem dopar nem distrair.
medo;
"estas sao as palavras que te diria se pudesse, se nao fosse o medo de estragar tua felicidade, ou, ainda pior, o medo de nos fazer feliz novamente."
talvez esteja feliz de verdade ("e pq continuo achando que é tudo encenação para mim?")
talvez tenha levantado as âncoras e seguido por novos mares.
faz tempo que não dá notícias, faz tempo que não sinto o anzol puxar.
nem o coração bater.
nem nada, faz tempo que não sinto nada.
e acho que é hora de tirar as iscas e mostrar o anzol, ou de recolher a vara uma vez por todas e voltar para casa sem peixe.
experimentar um pouco da fome.
mas ainda terei o cheiro de peixe para me assombrar.


eu não sei, é difícil ter noção de realidade sendo quem sou.
é tudo doença, é tudo doença séria.

e uma coisa que me incomoda:
até que ponto essa doença sou eu?

3.3.10

talvez seja melhor assim...

- ei neide, tu conhece lady gaga?
- quem?
- lady gaga, a cantora...
- eu merma não.
- eu nasci no mesmo dia que ela!
- e isso é bom?

2.3.10

wikilove

qualquer um pode definir o amor no wikipedia e é isso que acaba com ele, comigo.