5.3.16

quantos lados há de se ver até que se enxergue o que de fato é.
sinto meus ossos doendo, sinto meus ossos doendo, ela disse, como se houvesse uma história guardada em cada um deles. 

3.3.16

como se quisesse matar algo além do tempo, fumava um camel azul atrás do outro. um vento fio passava pelos seus pés descalços, calcanhares comidos com mordidas de calçadas ásperas. se chamava olivia contra sua vontade, coisa que nunca entendeu; ter sido batizada quando nem sabia quem era deus, quem era ela. portanto, era olivia, pendida nas grades engraxadas do seu jardim. você entende onde quero chegar, descrevendo mais do que preciso?

"quando vão comprar cortinas, esses vizinhos dai?" "por que te incomoda?" "não sei, mas não é certo viver tao exposto."

carne trêmula

teus dias não passam de um jazigo para os outros dias.

aspas crescidas

cheguei num ponto. (aqui ninguém pode por mim)
inacontecida, hermética. (aqui estou, sempre dentro)
poema inaudível (você me escuta?)

não, a vida passa feito o que é; e eu não sei explicar o que não acontece.

há dias não comem e eu não sei o que dizer sobre os tigres que não rugem pois o silêncio é auto-explicativo e as pessoas querem sangue.

o parto dinamarquês

as dores não vinham, naquele dia de chuva abafada, conforme esperado. digo que eram esperadas pois nascer dói e naquele dia nada doía, nem mesmo as árvores que balançavam sob o vento, contorcendo-se para ainda serem árvores. há uma regra universal destinada pela própria natureza de que todas as coisas devem ser, embora não saibam que são, cabendo a elas encontrar o que melhor define sua existência ou curvarem-se ao que lhes convém. eu era ninguém, apenas uma mulher sonhando com as mãos apoiadas em um ventre infrutífero, laico, deserto. o abandono que me causei foi tão grande que fui obrigada a criar uma outra vida. no mais profundo do oceano, perto da trincheira das Marianas, guardei uma palavra nascida, fazendo refúgio num lugar totalmente inacessível. pois havia de ter uma outra vida, simples assim. ainda que longe, impossível e inalcançável.

2.3.16

children & other bad habits

I'm fuckin scared right now, but that's not the thing: I will not react like a scared person.

(dis)trair-se


"como que constrangidos consigo mesmos: sabiam sentir-se da mesma forma pulsante, ali de mãos dadas, contemplando o infinito que era se esquecer. um se perguntava ansiosamente se outro também sentia, e sentia que sim, pois não precisava se perguntar; a mente quieta respondia todas as perguntas não feitas, apenas estavam ali, de mãos dadas e sendo; pela forma que olhavam dentro da mesma coisa, pelo jeito que tudo bastava e nada faltava e pela troca de tanto quando nada foi dito; eram felizes, felizes demais para não julgar a si mesmos, como se houvesse algo de proibido em querer mais do que já era bom, como se fosse justo ter um senso do que é justo, como se fosse simples demais para não estranhar, para não se perguntar em que exato momento desfariam as mãos e tudo acabaria, e quem soltaria-se primeiro, e qual dos dois aguentaria por mais tempo o grande pesar que era ser feliz? foi então que um sorriso ficou tenso, e o outro percebeu, e percebendo, piscou, e o sorriso vendo o olho piscar, desfez-se em suor, e o aperto úmido de mãos começou a afrouxar, o encaixe escorregava, e já não enxergavam mais aquele nada, e sim tudo, e então nada mais bastava e tudo lembrava o momento iminente em que se desfariam, porque lembraram-se: não há infinito. até que um soube, e o laço se desfez em nó, e a fala precisou de palavras, e estas, racionalmente tentando explicar o que não precisava de explicação, consumiram letra por letra cada segundo de levitação."

means i love you

- whoa, wait, i'm not perfect. thats the first and biggest mistake in most relationships, that's why it falls apart, that's why couples end up feeling betrayed and hating each other. you see, they betray themselves. people fall in love with this weird, distorted image they create and thats the first thing they forget: reality. it's all beautiful and tragic, but never true...

- but you are perfect to me.

- listen, i'm serious. i'm not some kind of salvation to your personal hell, ok? i don't ever want you to forget this: i will hurt you, no matter how much you love me, no matter how much i love you. there are rotten things in me your love won't ever change, but you'll love them too, won't you? so let me warn you, i might run from the car in the middle of a fight, i might hang up on your face and i may wake up one morning and decide to leave without previous warning, and i might just take your dog with me too. i will hit on someone just to make you jealous and its very likely it will be your best friend, i might.. i might... i dont know, i might hate your mother's food, i might have bad breath...

- stop, you're scaring me.

- i'm sorry, you scared me first.

- i love you.

- i'm scared.

- that's ok. it means you love me too.

1.3.16

Luiza

eu sinto tua falta, pq isso é tão difícil de dizer? eu sinto tua falta, tenho saudade. como vc pode me magoar tanto, tanto ao ponto de que eu não conseguisse sentir mais nada. como você pode, depois de tudo? sério, como? 

minha mãe foi diagnosticada semana passada como portadora de transtorno de personalidade narcisista e histrionica. minha vida inteira estive nas mãos de uma mulher perturbada e isso talvez explique pq estou sempre nas mãos de outras mulheres perturbadas. eu tenho trauma do amor, honestamente.

então agora, nesse instante de lucidez onde sinto intoleravelmente tudo que me aconteceu, eu sinto sua falta. e muita. e eu não trocaria isso por nenhuma outra história. a verdade é que cansei de negar. mas também não sei dizer como. 

você me magoou e eu chorei tanto, nem lembrava disso, mas chorei tanto, tanto e tão de repente, era uma sexta-feira e eu não consegui levantar da cama pois tudo me lembrava você, até o que nunca lembrara antes. como eu esqueci disso? foi um nevoeiro.

em seguida nada mais acontecia. as mensagens chegavam, a vida passava em fotos compartilhadas, tudo parecia ser um estilhaço de algo que não fazia sentido nenhum, quando colado de volta. sabe o que é sentir tanto que você para de sentir? ou estar tão assustado que você vai embora de si mesmo? você sabe, não sabe? eu sei que sabe. 

dias & dias, nunca & quase, nada mais fazia sentido, eu estava só em todo canto, uma solidão ausente de mim mesma. não importa onde fosse ou o que fizesse, eu não estava. falar de você era como contar uma história que meu avô me contou, apenas um fluxo de palavras sobre algo que um dia foi importante para alguém, mas não para mim. 

conter-me foi fácil, visto que eu não estava, como vigiar uma casa onde não há ninguém. e o que eu deveria ter feito, afinal? de um jeito ou de outro, a gente morre; sorte de quem pode escolher como.

blind

posso acordar e me perguntar "o que estou fazendo?" ou posso simplesmente permitir que seja.
assim, de olhos fechados, acordar e permitir que seja o que for.
posso esquecer tudo e acreditar que as pessoas mudam e que eu também mudei ou posso continuar presa naquele medo.
é libertador pisar fora do medo, mas sempre fica um pouco no rastro, por isso vou devagar, por isso limpo sempre meus pés antes de entrar em qualquer pessoa, para entrar em paz.
não quero mais manchas nos caminhos que traçar, não quero mais olhar para trás e farejar aquele velho e estranho sentimento.
quando penso que sei, grande parte das vezes eu não sei, mas quando eu sinto é sempre certo.
quanto mais eu penso, menos eu quero sentir e talvez toda essa racionalização seja uma forma de me poupar, de viver seguro.
quero trocar a falsa segurança por confiança
e se, por um instante no passado eu apenas quis, se por um tempo eu sabia possível,
hoje eu sinto que posso.

e
eu
vou.

/2010

nunca tive muito problema com a noite, até certo tempo atrás.
sim, eu gostava da noite, gostava de imaginar coisas no escuro e fingir que estava sonhando de olhos abertos, gostava de abraçar um travesseiro entre as pernas e pensar com carinho em alguém, gostava de deixar os pés para fora da colcha e sentir um friozinho, gostava principalmente das noites de ninar chuvosas onde a natureza parecia imitar um choro que não era o meu, nem o de ninguém, porque naquelas noites ninguém chorava.
os tempos de paz de noites bem dormidas, de noites aninhadas comigo mesma, quando a casa ainda era um lar e meu travesseiro aguentava o peso de minha consciência.
as noites que eram apenas férias de sol, as noites de luz de velas, as luzes da noite que nunca se apagavam ainda que eu fechasse os olhos, eu dormia com pensamentos de luz e com sono de pluma.
e de repente os dias viraram noites
não é o jeito que as coisas são que me incomoda, é o jeito que elas deixaram de ser.

não, não é questão de ser homem ou mulher, nem bonito nem feio, nem raso ou fundo, nem nada. o questionamento é medíocre por si só, "por que você?"
por que eu?
por que a pergunta?
tenho uma resposta branca e uma transparente e uma vermelha;

carta ao golfinho

eu queria não estar tão cansada para escrever esta carta, mas estou, golfinho, e espero que você entenda. eu sei que você é apenas um golfinho e não sabe ler, mas algo me diz que é necessário, que você vai entender de alguma forma. como toda vez que olho para o céu e me pergunto se você também está olhando, e tenho a sensação de que a gente está se vendo lá nos reflexos das estrelas, lá no fim da vida onde não há questionamentos.
mas ainda não chegamos lá, golfinho, portanto os questionamentos existem.
olha, eu sei que fui eu quem te encontrei, mas isso não faz de você meu golfinho. espero que não fiques assustado com a minha presença, ainda que a tua me assuste também. não tenha medo golfinho, eu também tenho. não deixe que nada disso te afogue, você nasceu para nadar. eu digo "calma" e deixo você repetir comigo "calma aqui, também", e a gente não pode dizer "calma" com pressa.

acordei

em algum lugar entre nascer e morrer

old conversations with an old lover

"emagreci e ninguém notou, agora to pesando 89kgs!"

é? se eu te disser o quanto minha alma está obesa desse papo fantasia a cadeira quebra e a casa cai, fico magra e mansa em três minutos, você volta a ser faquir e ela se interna na igreja.
ah, eu conheço essa batida, ai não.
não essa batida, não de novo, oca e seca imitação do pulsar, esse latejo que lembra a vida com tanta perfeição se não fosse uma paródia obscena do tedio
preciso parar na farmácia
pra que
pra comprar meu remédio
que remédio
po, o meu
remédio da loucurinha é hahaha
é
sério
sério
...
já ouviu falar em transtorno bipolar
pronto, eu tenho algo parecido com isso, mas é como se mudasse mais rápido
...
se chama borderline
...
eu esqueci que você não liga

I am sorry for being here

às 4 da manhã já de pé, ando pelo chão frio de mármore com um cigarro aceso nos dedos, se tivesse mais mãos fumava logo três de uma vez. o cachorro sente o cheiro e fareja debaixo da porta, como queria ser ele, desejando algo fora do meu alcance, desesperada. a primeira pessoa acorda às 6 e a presença ativa de alguém me deixa incomodada comigo mesma, feito quando chego em casa sóbria e todos me esperam bebada, então faço esforço para parecer ainda mais sóbria, parecendo finalmente embriagada para a decepção e não-surpresa de todos. seria um escândalo, estarem errados.

a boca seca, o coração seco

dar um pega e jogar a cabeça para trás, a certeza de que sua mão estará ali quando repousa-la sobre o palet descoberto. a boca seca procura a tua boca seca e dois desertos se despejam em uma tentativa de afeto. um gole de cerveja quente, eu lembro do carnaval com esse gosto, e de novo. eu não te amo, deixo bem claro como uma tentativa de aviso, uma anti-declaração, na verdade acho que nunca amei ninguém exceto uma ideia muito boa que criei sobre uma menina, mas ela morreu. na verdade mesmo, se a gente tirar a primeira camada do que disse anteriormente, acredito que seja bem o oposto: amei demais, amei tanta gente, amei cachorro, menina, mulher, homem, gente que nem sabia quem era, eu amei. mas essas coisas secam, sabe? como fruta seca, feito uma uva-passa que deve ter esse nome por tudo que ela passou na vida pra ficar seca daquele jeito, seca comida, seca como eu. árida, pois já falei seca demais. você não liga, eu sempre esqueço disso. é tanta coisa que a gente pensa no meio de coisas desinteressantes, e penso em tudo que deveria estar fazendo agora e na lista enorme de tarefas e to-do's e to aqui perdendo meu tempo tentando achar uma posição boa para minha língua na tua boca. mas quanto desse tempo já não se foi, despertar? a menina não volta, depois que ela vira mulher, dragão ou entristece, ela não volta mais a ser menina, pois não cabe mais, sabe? como se a realidade tentasse vestir uma roupa e sair na rua disfarçada de menina mas todo mundo a reconhece pelas roupas rasgadas que já não lhe pertencem. coisa triste de se ver, ainda mais quando é você quem cai na imbecilidade de tentar pertencer ao que não te dá mais.

back to meds

volto pro remédio e então começa o pequeno despertar, uma euforia mansa que se traduz em pouco sono e taquilalia. dizem pra correr, pra evitar café e outros estimulantes, dizem que em dois dias vai passar, quando o corpo se acostumar à nova droga. me diga, quanto tempo meu corpo ainda vai ter que aguentar tanta readaptação constante? sinto que estou sempre me conhecendo e não sei o que dizer às visitas, sinto que às vezes não se trata de mim o que sou. insisto em desvendar o mistério de ser-me, às vezes adormecendo no fim da noite com a sensação de uma jornada intensa de trabalho, ainda que nada tenha feito a não ser: respirar, pensar, descobrir como agir em situações que requerem minha presença, estar.

toque aqui para escrever

agora toque aqui (puts hand on chest) para descrever

coffee

você faz café pra mim, forte, sem açúcar, com um beijo doce no final que estraga tudo.

breakfast

good habits are boring

what am I doing

everybody's gone and I'm still dancing to that song you played
I used to be happy
(I don't know why)



maybe that's why I was happy